sábado, 29 de março de 2008

Resumo: Neste ensaio, aborda-se o homem frente a sua angustiosa existência, correlacionando-o com a linguagem, expressão esta de maior valoração e exaltação da vida frente ao ameaçador ilogismo do não-ser.


Escrever é preciso, viver não é preciso


Se a vida é o curso cronológico representante da finitude que compõe existência humana, a linguagem é a exaltação das tênues vivências individuais, frente à vastidão dos cosmos. Um grito de existência, e como afirma Schopenhauer, também uma das várias expressões humanas, almejantes pela perpetuação da Vontade de viver.


A temática da morte e da vida presenciou-se na literatura ao longo das épocas, destacando as cartas do poeta Rilke e seus questionamentos angustiosos perante a solidão, inata ao estereotipo do escritor-gênio. Mesmo no neolítico, estatuetas e pinturas rupestres, dentre outras artes simbólicas, permanecem na obscuridade da nossa compreensão; mas uma coisa é fato: Não fogem a regra do eterno buscar significante do Ser perante o Mundo.


A origem dessa expressão angustiosa e da procura por significados é, portanto, notório e característico à existência humana, alternando em importância ao longo do tempo, em que se consolidam os avanços técnico-cientificos. Exemplo disso é o fato dos filósofos pré-socráticos deterem-se na tentativa de explicar o cosmo e seus fenômenos, quando posteriormente os pós-socráticos adaptam à filosofia a visão antropocêntrica, onde o homem representa o centro dos questionamentos do existir. Schopenhauer e seu conceito de Vontade, como a coisa-em-si, é a figura moderna do homem preocupado em explicar a si mesmo e suas angustias que o movimentam e impulsionam.


Mas este pequeno ensaio não objetiva oferecer explanações acerca da existência humana, tampouco realizar um apanhamento histórico caracterizando a sua importância nas sociedades que se consolidaram ou se desfizeram ao transcorrer do tempo. Todavia, pretende somente destacar a onipresença de tais questionamentos nas expressões artísticas que o difere de outros animais, destacando a literatura e suas múltiplas extensões, tanto na poesia quanto na prosa. Clarice Lispector, sob raras exceções, trazia à tona na prosa poética o quão conflituoso é existir não somente com o outro, mas consigo mesmo. Muitos outros escritores, nacionais e internacionais, trazia à sua prosa a sua angústia.


De modo simplório, remeto-nos à observação: Se for improvável a existência harmoniosa do homem no âmbito intrínseco (a paz em si), fato este comprovado pela angustiosa presença do questionamento do Ser ao longo de sua existência como espécie, está mais do que provado que a culpa de tantas angustias não pertence às influencias das sociedades modernas e seus constantes paradoxos. O homem, conseqüentemente, não é conflituoso e insatisfeito por estar imerso numa sociedade, mas sim por ser, simplesmente, homem.


O que conhecemos como atualmente como “válvula de escape” é a representação fenomenal do angustioso existir. A fonte destes anseios também permeia a sociedade (quando, segundo Freud, a sociedade limita sob poder coercitivo, o chamado “princípio do prazer" humano, eliminando seus desejos pessoais em detrimento do coletivo), mas sua principal causa reside na própria existência humana, que não detêm tais respostas.


As válvulas de escape são sim necessárias, e dentre elas, a que mais se tem destacado desde que a humanidade surgira é a pintura (a priori rupestre, hoje propaganda), e a linguagem verbal/ escrita. Mas a mais bela é a escrita, que apesar de limitada por um determinado código de sinais, representa o mais estimável dos louvores à vida, e que contribuiu significativamente pela preservação da sanidade do homem frente ao constante temor do não-existir.


- Silier Borges