quarta-feira, 23 de abril de 2008

Resumo: Mensuração panorâmica do sensacionalismo midiático e sua relação conflitante com a realidade. O dualismo presente na pseudo-busca por fiel representação do real, e a tirania do atentado ao privado. O comportamento anti-profissional midiático como principal responsável à banalização da criminalidade hedionda.


Sensacionalismo midiático e a banalização do hediondo

Fotos invasivas, laudos periciais, lágrimas e depoimentos precipitados. Elementos estes que configuram as coberturas radiotelevisivas da atualidade, na incontida ânsia de abocanhar números cada vez mais expressivos de audiência na programação. Casos semelhantes estão a se repetir, trazendo-nos aos presentes questionamentos nem sempre solúveis à primeira instância: Qual o limite entre o público e o privado? O que a lei tem a nos dizer sobre o poder invasivo da mídia brasileira? Qual o limite entre sensacionalismo e profissionalismo na indústria da informação?

Em verdade, a veiculação massiva do desespero particular deixara há muito de ser a coerente representação da realidade, tornando o sensasional ao simples alcançe do controle remoto. Segundo a democratica premissa da informação livre, temos uma sociedade que, sadicamente, entretem-se com a exibição sequencial de casos de violência e mortandade. São os chamados shows diários de sensacionalismo pseudo-jornalístico.

A que assiste tais programações, o termo "remoto" não definiria exatamente os ultimos acontecimentos. A relação de proximidade entre telespectador e emissor é mais que estreita. Como agravante, tais casos têm-se tornado cada vez mais frequentes, e não menos raro temos visto promotores, juízes e delegados burlarem a lei e, no ímpeto da busca por prestígio, divulgar à sedenta imprensa aquilo que é tido por confidencial. O mesmo ocorrera com a garota Isabella Nardoni, morta fisicamente em 29 de março, mas vívida pela terceira semana nas mais variadas progamações midiáticas, disponível a todo instante, a qualquer hora, exaustivamente. Hoje, Nardoni oferece melhores perspectivas de audiência que as telenovelas de melhores indices, dentro das maiores emissoras. Vê-se um impasse nesta questão: Enfrentamos a democratização da informação, ou a tirania da brutal banalização da realidade?

A relação de causa e efeito entre banalidade e violência confunde-se e se mescla a todo instante: A própria banalização da violência consiste em si numa processo violento e corruptor tanto dos direitos quanto da dignidade inata ao homem. Ainda que a violência seja biologicamente inerente à espécie como fator de evolução, tal comportamento a nível social não lhe é justificável: O homem não é a tábula rasa de Locke, e portanto, a pressão ambiental é significativa no processo de composição da personalidade individual. Segundo essa premissa, o processo cultural em que o assassínio é encarado trivialmente consiste numa agressão à consciência humana (agressão-em-si) da população exposta a tal processo, estimulo este que elicia o comodismo expectante por leis falhas, facilitador do esquecimento geral de crimes hediondos e a consequente frialdade para com o que deveria causar pavor e comoção.

Define-se a violência como sendo o comportamento que resulta dano a outro sujeito, vivo ou objeto. Entretanto, este dano pode também ser de natureza psicológica. Sendo assim, a imposição da voracidade pelo capital seria um estímulo mais que danoso ao social, no instante em que favorece a banalização do criminalmente punível. Considera-se, portanto, que a veiculação massiva do sofrimento alheio não é danoso somente aos familiares e próximos da vítima a que teve o seu particular tornado público, mas também à sociedade em integra, que se detêm à omissão frente a ditadura da banalidade do hediondo.


- Silier Borges

Artigo disponível no site Portal Tô Sabendo.