terça-feira, 1 de abril de 2008

Resumo: Neste artigo, questiona-se a falácia naturalista e sua visão limitadora, que vê a mulher como figura restrita a pequenas funções sociais devido a tendência comportamental biologica-evolutiva. A larga utilização de conceitos psicológicos pela indústria do marketing, como forma de eliciar comportamentos consumistas. O feminismo como alternativa moderna de superação da falácia naturalista.


Falácia naturalista, a mulher e a quebra de modelos biológicos evolutivos

As sociedades modernas, como perpetuadoras de paradigmas pré-estabelecidos pela ancestralidade, primam pela destacável preservação do modelo da supremacia fálica e da figura masculina no centro das várias interações sociais.

Desde os primórdios da espécie hominídea, o macho responsabilizou-se pela caça e pelos trabalhos mais dispendiosos, sendo que a figura da fêmea relegou-se à preservação das crias; Entretanto, por meio dessa premissa, surge a falácia naturalista, seguindo a afirmativa de que já que um homem ou mulher possuem determinadas tendências que os instigam a comportamentos pré-determinados, estas respostas primárias devam obrigatoriamente serem repetidas e estimuladas socialmente. Em suma, cai-se no erro ao afirmar que, se as mulheres cuidam das crias desde os primeiros sapiens, deve-se restingir-se a tão-somente tarefa de cuidar dos filhos no mundo contemporâneo, evitando pois o convívio com o trabalho e com outras áreas ditas masculinas. Presume-se, pois, a ideologia patriarcal com base em preceitos (ou melhor, preconceitos) ditos "científicos". Como consequência, marginaliza-se a mulher, esquecendo-se de sua autonomia.

Ademais, como romper com tamanho paradigma mascarada por pseudo-ciência, responsável pela confusão dos menos esclarecidos? é fato que nossa sociedade, mais específicamente a brasileira, apresenta comumente o que é senso comum maquiado pela agradável tintura de pseudo-ciência, ou como é popularmente apresentada, "ciência alternativa". Para tornar o quadro ainda mais polêmico, vemo-nos em volta de um contexto social de valorização da figura fálica no meio da mídia e marketing, como forma de atrair as mulheres para o consumo de produtos, por vezes supérfluos, no instante em que não contribuem (direta ou indiretamente) na preservação da sua própria existência.

A própria Psicologia, por meio de Freud, instiga-nos sobre o tema em que a mulher admira o objeto fálico por não possuí-lo biologicamente, questão fisiológica esta que facilita a apropriação de tendências comportamentais do inconsciente pela indústria do consumismo voraz. Para se ter uma idéia da dimensão da problemática, muitas embalagens de cosméticos são produzidos na forma fálica, eliciando o comportamento de compra pelo público-alvo feminino.

O fato é um: ainda somos animais com a evolução estagnada à 10.000 anos, sendo que a nossa evolução dá-se somente a nível cultural e tecno-científico, não mais por pressão natural, e sim social. Somos em essência animal-componente na natureza, mas acima de tudo, capazes de elaborá-la e redefiní-la (antroposfera). Nosso comportamento atual permanece sob decisiva influência dos temores que permeavam as selvas, conceito esse definido pela Teoria da Savana.

Voltamos a mesma questão. Se o comportamento androcêntrico é biologicamente explicável, seria correto que deva-se preservá-lo como comportamento estimável no meio social? A resposta é não. Muitas das conquistas do movimento feminista destacam a igualdade de sexos nos mais variados meios, seja do trabalho ao âmbito familiar. São muitas as mulheres que, hoje, sustentam a casa e que saem diariamente ao trabalho, enquanto seus esposos cuidam dos filhos e do lar.

Foram, e serão muitas as conquistas das mulheres nas sociedades da atualidade; fato comprovado pela tendência das mulheres em sobrepujar os homens na capacidade de realizar múltiplas tarefas, exigência esta de grande valor no mundo pós-moderno, caracterizado pela velocidade da informação. Ao contrário do que se possa pensar, sua biologia não a impede de exercer sua liberdade e sua busca por igualdade, muito pelo contrário: Ao que tudo indica, superará as expectativas e os modelos pré-concebidos, exercendo possivelmente cargos sociais e políticos de destaque nas sociedades que primam pela busca da democracia.

- Silier Borges