Resumo: Parte final da série de três artigos, a respeito das relações entre moralidade cristã, a proposta de ideal humanista, e a relação da mesma com a proposta ateísta, frente as adversidades da contemporaneidade.
O ateísmo como proposta humanista -
(Quando moralidade vira sinônimo de passividade - Parte 3, Final)
Na série dos artigos que precederam o presente ensaio, questionara-se o poder da religiosidade em proporcionar à sociedade contemporânea, metas éticas que sejam seguidas tão intensamente quanto os dogmas dos vários credos ocidentais. Ainda que, em discurso, defensora da onipotente deífico, pouco potente são as religiões e divindades na repressão e impedimento moral de atos repugnáveis socialmente.
Concomitantemente as transformações nas relações sociais mundiais, surge a eminente necessidade do estabelecimento de responsabilidade moral, normas éticas e padrões comportamentais majoritariamente aceitos por concenso, por meio da técnica da razão, remanescente da capacidade superiora de auto-dominação do dotado pensante sobre os impulsos individuais, impulsos estes, a priori, motivadores das remotas sensações instintivas que parcialmente configuram os desejos humanos. A demanda emissiva por uma sociedade seguidora de valores como justiça e equidade social não é mero fruto de uma construção histórica e temporal, mas resultante da onipresente vontade do grupo numericamente maioritário (e, geralmente, grupo este menos favorecido) em democratizar os vários bens, recursos e, enfim, riquezas globalmente disponíveis.
De sumária importância é a reversão do presente quadro de conflituosa antítese nas relações humanas: Quando em grupo, prega-se os valores transcendentais, mas individualmente pouco posto em prática. Como superar este paradigma se não por meio do estabelecimento de novas normas capazes de nortear coerentemente as práticas humanas, por meio de uma visão humanista de mundo?
Tem-se comumente visão engessada das filosofias que contrastam a predominante moralidade cristã. Por meio do poder de inquestionabilidade inerente aos dogmas e demais preceitos religiosos, pouco discorre-se sobre a capacidade produtiva das demais. De tal forma que, com base no senso comum, ignora-se o poder humanista da proposta do athéos. Sob princípios do ateísmo, a uniformidade de comportamentos (ética) não deve ser proporcionada por uma entidade especulativa plausível de poder místico-punitivo, mas pelo reverenciar de um Estado laico dotado de plenos poderes de executar e legislar. Através dessa premissa, a ordem social se estabeleceria por meio da supremacia apolínea da razão e do poder crítico conferente à espécie, não mais pelo simplório temor da punição em iminência, sempre questionável quando oriundo de divindades e seus obscuros ou nem sempre compreensíveis desígnios.
Dessa forma, sob a ótica humanista-ateísta, atribuiria-se valor ao homem e tão somente por ser homem, não como ente submisso às forças naturais, tampouco como sujeito superior a natureza que verdadeiramente o integra. Ainda que ideologia utópica, as questões da atualidade seriam sanadas sob essa perspectiva teórica: Os recursos naturais seriam explorados parcimoniosamente, sob a ótica de integração de homem e mundo; a angústia da existência e do caráter punitivo de pós-mundo seria eliminado, no instante em que se compreenderia a impossibilidade lógica de tal mundo incorpóreo; o desaparecimento das angústias existenciais seria consolidado pela compreensão da impossibilidade de vida pós-morte, que por sua vez geraria a proeminente necessidade de atribuir valor aos semelhantes enquanto indivíduos dotados de suas respeitáveis particularidades. Os prazeres capazes de eliciar satisfação e bem-estar, tal como busca epicurista pelo ideal de felicidade, seria almejado pela vontade em comum, visto que só o que é dotado de raridade, pode ser dotado de empenho e dedicação: Tal qual a vida. Considerada desde então universalmente única, cultuada a existência seria como expressão máxima altruísta e simbolo ou bandeira do bem comum (carpe diem, para os barrocos e seus gênios conflituosos).
Ainda seja perceptivel a força egoísta que, como dita no artigo anterior, é inato ao homem desde seu primórdio, a artificialmente elaborada proposta do humanismo é sim possivel e associável a alguns conceitos de caráter ateísta. Obviamente que, sob orientação do razoável, o objetivo desta série de artigos não é propor novos modelos comportamentais universais, até porque tal proposta na prática talvez se revelasse em algum ponto incongruente, ou mesmo impraticável. Em verdade, os objetivos do presente ensaio nada mais foi o de revelar ao caro leitor o poder alienatório de preceitos cristãos, que por sua vez construira ao longo de sua vasta história, série de preconceitos e repúdios a filosofias tanto ou mais coerentes que as suas. Que entidade papal há de afirmar, veemente, onde está o paganismo?
- Silier Borges
Concomitantemente as transformações nas relações sociais mundiais, surge a eminente necessidade do estabelecimento de responsabilidade moral, normas éticas e padrões comportamentais majoritariamente aceitos por concenso, por meio da técnica da razão, remanescente da capacidade superiora de auto-dominação do dotado pensante sobre os impulsos individuais, impulsos estes, a priori, motivadores das remotas sensações instintivas que parcialmente configuram os desejos humanos. A demanda emissiva por uma sociedade seguidora de valores como justiça e equidade social não é mero fruto de uma construção histórica e temporal, mas resultante da onipresente vontade do grupo numericamente maioritário (e, geralmente, grupo este menos favorecido) em democratizar os vários bens, recursos e, enfim, riquezas globalmente disponíveis.
De sumária importância é a reversão do presente quadro de conflituosa antítese nas relações humanas: Quando em grupo, prega-se os valores transcendentais, mas individualmente pouco posto em prática. Como superar este paradigma se não por meio do estabelecimento de novas normas capazes de nortear coerentemente as práticas humanas, por meio de uma visão humanista de mundo?
Tem-se comumente visão engessada das filosofias que contrastam a predominante moralidade cristã. Por meio do poder de inquestionabilidade inerente aos dogmas e demais preceitos religiosos, pouco discorre-se sobre a capacidade produtiva das demais. De tal forma que, com base no senso comum, ignora-se o poder humanista da proposta do athéos. Sob princípios do ateísmo, a uniformidade de comportamentos (ética) não deve ser proporcionada por uma entidade especulativa plausível de poder místico-punitivo, mas pelo reverenciar de um Estado laico dotado de plenos poderes de executar e legislar. Através dessa premissa, a ordem social se estabeleceria por meio da supremacia apolínea da razão e do poder crítico conferente à espécie, não mais pelo simplório temor da punição em iminência, sempre questionável quando oriundo de divindades e seus obscuros ou nem sempre compreensíveis desígnios.
Dessa forma, sob a ótica humanista-ateísta, atribuiria-se valor ao homem e tão somente por ser homem, não como ente submisso às forças naturais, tampouco como sujeito superior a natureza que verdadeiramente o integra. Ainda que ideologia utópica, as questões da atualidade seriam sanadas sob essa perspectiva teórica: Os recursos naturais seriam explorados parcimoniosamente, sob a ótica de integração de homem e mundo; a angústia da existência e do caráter punitivo de pós-mundo seria eliminado, no instante em que se compreenderia a impossibilidade lógica de tal mundo incorpóreo; o desaparecimento das angústias existenciais seria consolidado pela compreensão da impossibilidade de vida pós-morte, que por sua vez geraria a proeminente necessidade de atribuir valor aos semelhantes enquanto indivíduos dotados de suas respeitáveis particularidades. Os prazeres capazes de eliciar satisfação e bem-estar, tal como busca epicurista pelo ideal de felicidade, seria almejado pela vontade em comum, visto que só o que é dotado de raridade, pode ser dotado de empenho e dedicação: Tal qual a vida. Considerada desde então universalmente única, cultuada a existência seria como expressão máxima altruísta e simbolo ou bandeira do bem comum (carpe diem, para os barrocos e seus gênios conflituosos).
Ainda seja perceptivel a força egoísta que, como dita no artigo anterior, é inato ao homem desde seu primórdio, a artificialmente elaborada proposta do humanismo é sim possivel e associável a alguns conceitos de caráter ateísta. Obviamente que, sob orientação do razoável, o objetivo desta série de artigos não é propor novos modelos comportamentais universais, até porque tal proposta na prática talvez se revelasse em algum ponto incongruente, ou mesmo impraticável. Em verdade, os objetivos do presente ensaio nada mais foi o de revelar ao caro leitor o poder alienatório de preceitos cristãos, que por sua vez construira ao longo de sua vasta história, série de preconceitos e repúdios a filosofias tanto ou mais coerentes que as suas. Que entidade papal há de afirmar, veemente, onde está o paganismo?
- Silier Borges