quarta-feira, 14 de maio de 2008

Resumo: Reflexões a respeito da incapacidade das várias instituições em suprimir a criminalidade por meio de uma ética religiosa, situação esta de caráter paradoxal, quando se observa que o egoísmo é característica inerente à espécie hominídea.

Farinha pouca, meu pirão primeiro -
(Quando moralidade vira sinônimo de passividade - Parte 2)

Se as instituições tradicionais pregadoras da sacra moralidade e baseada nos preceitos e paradigmas cristãos, não se revelam capazes de suplantar a prática da criminalidade mesmo no seu corpo de fiéis, deve-se obviamente substituí-la por filosofias que, na prática, gerem resultados estimáveis e efetivos. Ainda que as várias religiões ocidentais mantenham uma visão equivocada dos outros ideais que lhes contrastem, há mútua concordância no resgate a uma posição humanitária de um homem que tornara-se, com o advento da competitividade, ainda mais desumano.

Mas quem é digno de tentar retratar, numa vã tentativa e sob o ponto de vista defensório, uma humanismo que escapa aos dedos humanos desde sua perspectiva existencial e ancestral? Tal coisa não nos é claramente possível; Afinal, o homem é egoísta e isso lhe é inato, ainda que o altruísmo recíproco, fruto de uma artificialidade social, lhe tenha sido elaborado como mecanismo de sobrevivência em meio a hostilidades várias. Para Freud, ao resgatar reflexões pertencentes ao filósofo grego Epicuro, o homem é sempre impulsionado pelas suas necessidades sensuais básicas, do qual denominara princípio do prazer. Este princípio é imediatamente confrontado com o da realidade, que são as convenções sociais que nos impedem de realizar os anseios mais imediatos. Desde o iluminista Hobbes, sabe-se que o homem é o lobo do homem, aforisma precípuo na compreensão de um individualismo bem conhecido do coloquial: farinha pouca, meu pirão primeiro.

Ainda que o Thomas Hobbes acrecentara o fato deste egoísmo ser inerente ao homem tão-somente em estado de natureza, portanto ausente de ética social, tal preceito nada mais era que resultado da tentativa do filósofo justificar o Estado absolutista em plena modernidade e decadência desse mesmo sistema político. Ademais, sob a bandeira liberalista, Rosseau e seu bom-selvagem afirmara que são as pressões sociais que tornam o homem essencialmente egoísta. Em verdade, os dois estavam parcialmente errados. As pressões de um ambiente hostil ancestral pressionara os primeiros hominídeos a se socializar e buscar os interesses de um grupo em quanto suplantava os individuais, mas ainda assim sabe-se que sobrevivera graças à capacidade de auto-preservação, que invariavelmente condiz com o comportamento de valorar si em detrimento doutrem. Mais tardiamente, com o findar da sociedade gentílica, democraticamente baseada em decisões comunais, a competitividade eclode e retorna-se ao ponto de partida. Sobrevivem os que mais detém: sejam os latifúndios no medieval, seja o conhecimento na modernidade, seja o poderio econômico na comtemporaneidade.

O surgimento da propriedade privada está intimamente ligado ao discutido: Para o homem, é confortável e agradável ter enquanto outros não tem, lhe é antigo o exclusivismo. A suntuosidade independe das civilizações, pois lhe atrai. Desde que a arte surgira, até o seu florescer com o mecenato renascentista, busca-se simbologias relativas à superioridade dos grupos e a busca por status.

Entretanto, qual seria o intencionar deste artigo, se não afirmar que o egoísmo é inato ao homem por característica, e fortalecido pelas relações sociais e políticas ao longo de sua existência? Erradicar a fome é em tese possível, desde que o homem não mais seja homem ou, em outras palavras, deixe de ser egoísta. Os empecilhos burocráticos são sempre citados quando se debate este quesito, mas a existência do sofrimento de muitos e o deleitar de poucos é fênomeno de caráter atemporal e universalista, e sendo assim, nada mais é que mero reflexo de uma verdade histórica e de um poder natural, o irreversível destino do homem eterno-egoísta.

- Silier Borges