Resumo: Análise crítica da temática abordada no filme "Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago. Para tal, remete-nos a questões próprias da chamada "consumolatria" e da dialética relação entre individualismo e coletivismo.
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A cegueira e a ausência de ensaios
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Com recente exibição do filme "Ensaio sobre a cegueira", da obra honônima de José Saramago (nobel de literatura), têm-se uma ruptura com a modalidade tradicional de cunho essencialmente conservador na produção de longas-metragens. Para tal, recorre-se ao hábil recurso de poesia fotográfica das grandes capitais mundiais, e aliado à prosa visceral literária do qual brotara, o resultado tornara-se unicamente encantador.
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Elogios à parte, pode-se deduzir série de questionamentos que nos trás presente obra cinematográfica. Tal como a arte que nasce do plástico, objeto de uso moldável e portanto esquecível e suscetível ao descarte, a visão é nos tida como castradora de uma possível percepção humanista, paradoxalmente, do próprio homem. O meio sistêmico de produção, a alienação da força de trabalho e o resultado final do produto elaborara, conjuntamente, uma perspectiva de indivíduo inócuo e de tolices oníricas, intimamente dependente do objeto por ele manufaturado. Instaurado o consumismo, ou dita "consumolatria", estabelece-se o materialismo do descartável, reverenciado culto do inerte.
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A metafórica cegueira, portanto, dos indivíduos em meio a um cenário de catastrófica desolação, numa cidadela de lixões tecnológicos, ressalta o caráter de um homem que, em meio a rotina do metodicismo, exclui as possibilidades acerca de si mesmo e dos outros. Os relacionamentos interpessoais e as exigências do super-ego freudiano, imposições morais necessárias para o mútuo convívio, se esvaem com a súbita patologia. O homem em estado de natureza é brutal, mas que seria do homem contemporâneo em indiferente estado de sociedade? Quem ousa dizer-se vidente para o sofrimento que brota dos becos e concreto, todos inexoráveis, porém inexistentes aos sorridentes alheios? Não haveria de ser diferente, onde as linhas cartesianas do urbanismo alinham-se ao individualismo como conduta, pregador do coletivismo como prática ultrajante.
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Notável o súbito retorno da visão dos cidadãos aparentemente infectos. A obra conclui que, devido a ausência da experiência da cegueira, futuramente cega será a protagonista, única que misteriosamente se isentara da referida patologia. Cega em terra onde todos são videntes. Cega, pois, para alcançar a sabedoria de conduta, é necessário perpassar empiricamente pelas famigeradas fileiras tétricas da ignorância, sem deixar de refletir acerca do quão miserável e mesquinha pode tornar-se a existência humana.
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- Silier Borges