quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Resumo: Ponderações acerca da percepção cognitiva da realidade, além de breve passeio sob fato político que, quando analisado criticamente, faz-nos pensar acerca da falaciosa correlação entre ciências políticas e biológicas.
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Que é Realidade?
Ou Brasil, um país de todos (os) nós.
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Bem se sabe, de velhos tempos de discursos filosóficos, o poder de mutabilidade da realidade. Como compreender o significado semântico de verdade e concreto, observando-se o inexorável fato da verdade ser fenômeno, exclusivamente, construido por vivências e demais particularidades individuais?
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Desde Schopenhauer entende-se da incapacidade humana na dedução de uma realidade universalista e dotada de absoluta objetividade. De tal forma, a concepção de realidade nada mais era que representação do entender humano, em sua ampla limitação. Sendo assim, a análise da coisa-em-si (fenômeno que independa de análise humana) torna-se impraticável. Em tempos contemporâneos, para a corrente teórico-filosófica da Gestalt, cientificamente empregada no entender das novas teorias do desenvolvimento humano sob perspectiva psicológica, vê-se que a realidade nada mais é que construção intrínseca. Para tais teóricos, emprega-se a dita nomenclatura de mundo interno de experiência.
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Por tratar-se de experiência, bem se pode observar que tal discurso preconiza o já dito por filósofos de elevado calibre e de indubitável criticidade, a exemplo do grego Aristóteles. Em sua radicalização da força empirista, afirmara a Tábula Rasa, o homem como puramente construção das particularidades de sua experiência. Resgatado por Locke na modernidade e reavaliada pelos demais empiristas, a tese do homem como mediador e mediado por vivências adquirira status de ciência, sendo ora ou outra reafirmada em importância e contribuição por descobertas do campo da genética do comportamento. Apesar de que, esta última, não raramente posiciona-se contrária aos princípios básicos de concepção de mundo empiricista.
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A exemplo da caso de S.B. (ou outros vinte encontrados ao longo de duzentos anos de história), percebe-se o caráter da construção particular do que temos como realidade inexorável. Tal homem, devido à catarata congênita, jamais enxergara, sendo assim por longos cinquenta anos. Em dita idade, realizara operação que resolvera sua doença, sob perspectiva fisiológica. Entretanto, ver o mundo não é prática passiva; pelo contrário, essencialmente ativa. S.B. não compreendia o que via em sua completude, pois era incapaz de compreender noções de profundidade e distância. Veículos avistados por uma janela poderiam estar a quinze centímetros, sendo que em verdade encontravam-se a vários metros do transtornado cinquentenário. Não aprendera a perceber a realidade sob compreensão espacial, observando que seus últimos cinquenta anos foram por experiências tão-somente sensório-motoras. Sua visão particular de mundo, e igualmente a outrora vividez de sua personalidade, fora prejudicada pelo mencionado procedimento cirúrgico.
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Até que ponto a verdade física é construida por meio da interpretação e assimilação de simbolismos que compõem nossa realidade cultural? S.B., de fato necessitava de cirurgia, ou eram os médicos e cientistas que necessitavam da comprovação de superioridade visual sobre a modalidade táctil da percepção humana? Data vênia, quem de fato era cego?
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Ademais, não posso deixar a contextualização de lado, bem sabendo que tratamos de realidade (ou realidades, como queira). Na última semana de agosto, o ex-gestor Adelson Guimarães da SET (Superintendência de Engenharia de Tráfico) de Salvador prendera um modesto encanador de água sob égide da EMBASA, por impedir a passagem de carros numa dada rua, no transcorrer de meticulosa operação cidadã. Irritadiço, o ex-gestor nem ao menos permitira tamanhas explanações, retirando violentamente os cones que impediam o acesso, para logo em seguida dar voz de prisão ao anônimo trabalhador. Mais uma vez, o poder do coronelismo legalizado se é empregado, consolidando a pompa do 'desacato à autoridade' como máscara que encobre vergonhoso porém factível 'abuso de poder'. Já se passara o carnaval, mas as desfiguradas máscaras (assim como as descarações) persistem, como calo doído.
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Mais uma pérola do País de todos (os) nós. Penso, penso, mas para quê o pensar? A realidade, enfim, é mutável e fruto exclusivo da percepção humana. Como construtores individuais da realidade, liguemos pois o televisor na Globo, e esquecemos os mandos, desmandos e as demais impurezas cientificistas de nossa afável terra mãe-gentil.
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Não nos enganemos: ciências biológicas só se confudem com política nos governos facistas sob flâmula da excludente 'superioridade de raças', a falaciosa Eugenia. (De tal forma, a percepção humana é relativa. O que não deve ser relativizado são questões pertinentes à certas medidas políticas, sob risco de incorrer em inócuos discursos de base comodista, alienador de massas). Mas afirmar que a efetivação de políticas públicas também o é relativo, acaba-se por tentar justificar o injustificável.
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- Silier Borges