quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Resumo: Crítica da concepção usual de verdade, não-raro utilizada no discurso do opressor como mecanismo de manutenção das estruturas de poder. Salienta-se da impossibilidade humana de alcançar o concreto ou a forma ideal do objeto-em-si.
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Verdade e o discurso da demagogia
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Bem sabe os prudentes e céticos acerca dos questionamentos envolta da temática Verdade ou Realidade. Dentre as divergências teóricas, não raro retóricas, acerca da suposta verdade unificada e a imprudência de suas consequências, coabitam aqueles que optam pelo livre refletir, amparados pela acuidade da dúvida, primeiro passo para o caminho da certeza e do consenso.
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Observemos que o discurso da verdade é a voz do dominador que, hasteando flâmula maniqueísta e sofista entre bem e mal, verdade ou mentira, pressupõe-se dotado de um saber, conhecimento ou Verdade unificada e universal, que precede variações culturais, sociais e mesmo de opiniões divergentes, oprimindo ideologicamente quaisquer opiniões contrárias às suas. Assim governa-se massas. Assim nasce o estereótipo do Sujo, corruptível, livre andarilho do "mal caminho". Assim tem sido desde a fundação da primeira religião, e assim será até a queda da última; enquanto houver extremistas e suas teorias, homens dispostos a perecer (ou fazer perecer) por suas convicções.
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Inegável que desde Platão distinguimos entre o real e o ideal. A realidade captada sensorialmente é, verdadeiramente, sombra parcial de uma realidade ideal e intocável pela miserabilidade da condição humana. Convém distinguir ideal do mundo perfeito, o celeste cristão. Ideal, sob tal concepção, nada mais é que o objeto-em-si, em sua forma pura e isenta de interpretações. Mas é possível isentar o analisante do analista? Correntes metodológicas contemporâneas já afirmam que distinguir o pesquisador de seu objeto-de-estudo é por demais impossível, resquício positivista. Não há neutralidade na ciência, ainda que seja estimável o referido ideal. Como a ciência, tampouco os credos são indiferentes aos anseios humanos e, por que não dizer, mundanamente materialistas.
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Um objeto que existe agora, no dado momento pode não mais existir. Convém, igualmente, salientar que o tempo é concepção de caráter humano e, de tal forma, não existe sem o mesmo. Mesmo o homem, em sua existência minúscula frente ao infinito temporal, é tão significante e real quanto uma molécula no centro da Via-Láctea. Não há tempo sem homem, tal como não há som sem o transdutor sensorial (no caso, o ouvido e seu aparato), pois o som não passa de meras vibrações de ar; o homem que confere sentido a tais pressões. A visão humana é também ato interpretativo: uma criança desprovida de estímulos visuais nos primeiros momentos críticos do desenvolvimento podem não desenvolvê-la em sua inteireza.
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Qual sentido de ressaltar tantos por quês, tantas possibilidades, o quão relativo são as coisas? Mesmo Heráclito, o filósofo grego, destacou a impossibilidade de banhar-se no mesmo rio mais de uma vez, pois a água nunca é a mesma. Se a busca racional pela verdade pressupõe generalidades, é possível alcançá-la através de dogmas religiosos (e, portanto, generalizações) propostas pelos homens, sujeitos às intempéries da passionalidade, que molda e distorce discursos ao fragor do vento? Em verdade, seja dito: Enquanto houver a prepotente crença no absoluto e no irrevogável, existirá erro de julgamento, imposto por pseudo detentores da verdade, anuladores do alheio e do próximo.
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- Silier Borges