quarta-feira, 30 de abril de 2008

Resumo: Crítica direta à recente declaração do professor Dantas, declaração esta de conteúdo exacerbadamente discriminatório para com o Estado da Bahia. Resgate panorâmico histórico e geográfico da localidade, refutando argumentos que visem desqualificar a região que apresenta historicamente maior contribuição cultural e intelectual ao país.


Porque toda discriminação à Bahia é incabível.

A priori, deve-se deixar claro que este artigo nada tem de ufanista. Ainda que seu teor seja parcial - tal como ocorre com quaisquer dos inúmeros artigos publicados diariamente - vise, através de uma abordagem valorativa de uma realidade regional, rechaçar depoimentos dos que, por motivos diversos, pretendam descaracterizar as conquistas obtidas, ou mesmo ignorar as várias influências e contribuições multiculturais do Estado baiano para com o restante do país.

Recente declaração do chefe do colegiado da Faculdade de Medicina da UFBA, Antônio Dantas, causou, ainda que momentânea, relativa comoção midiática (e com razão). Afirmou o mesmo, nas várias e infelizes declarações realizadas, que o baixo desempenho dos estudantes federais no Enade refere-se ao "baixo QI que é inato aos baianos". Passou impercebido ser o mesmo também um baiano, e seguindo sequencialmente as contradições do discurso excessivamente discriminatório, afirmou também inferioridade da musicalidade baiana perante ritmos que lhe são exógenos.

Instantes como este torna necessário um reavaliar das conquistas inerentes ao Estado em questão. Bahia é o estado que carrega o título de sede da primeira capital da nação. Abrigando rica biodiversidade, teu território corresponde a 33,3% de todo Nordeste, sendo o litoral um dos mais graciosos e estimados das Américas. Guardiã de intrincada diversidade cultural, foram muitas as revoltas que caracterizaram a localidade na sua busca por emancipação, igualdade e particibilidade, em tempos de nação retrógrada. Palco de colonizações e opressões onde discursos pseudo-científicos de superioridade racial eram proferidos sob guarda da sacralidade cristã, foram muitas as discordâncias, em meio a um cenário de conflitos e invasões portuguesas e holandesas que, em sua vária miscigenação, contribuiu para o configurar de uma Bahia histórica em superações das mazelas e desmandos do coronelismo. Resquícios estes que, em meio a uma sociedade utilitarista de valorização do estrangeiro, resgatam o trágico passado das elites latifundiárias vindas das nações nórdicas exploratórias das riquezas da antiga e da recente Pindorama.

Dentre este oscilar de histórias, Canudos e Revolta dos Malês representam o ápice da vontade de uma população negra e oprimida no almejar de equidade social. A contribuição histórica da Bahia para com a nação se dá nos mais variados níveis de acontecimentos que o compuseram, como literatura: Resgatemos pois os célebres Castro Alves e sua genialidade aplicada às lutas abolicionistas; Adonias Filho e Jorge Amado, dois literatos baianos membros da Academia Brasileira de Letras, sempre a resgatar a mística cultural popular da aclamada Salvador da Bahia, não tão diferentemente do João Ubaldo Ribeiro (em verdade, um quase-baiano); a romanceada poesia do Vinicus; o Caetano e suas elaboradas composições; dentre centenas de outros que nem mesmo no maior dos artigos caberia citar. Todos, inegavelmente, contribuintes máximos da literatura nacional, já apresentados ao mundo, bom saber.

Resgatando criticamente o conteúdo bíblico, Babel fracassou não quando houveram discórdias linguísticas, mas sim quando os construtores distanciaram-se em altura de tal forma de teu aliçerce, que a construção por inteiro ruíra. Princípio básico é o de que não há construção sem o que lhe fundamente. Tal fenômeno ocorrera com o professor Dantas e muitos outros dos quais exercem cargos elavados, distanciando-se da imediata realidade que os rodeia, ignorando fatos que de tão gritantes sobressaem-se em relevância. Não fôra a mídia ou a classe estudantil que não perdoou tamanha declaração, mas a consciência crítica socialmente engajada que - gráças! - ainda habita nossa boa terra.

- Silier Borges

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Resumo: Mensuração panorâmica do sensacionalismo midiático e sua relação conflitante com a realidade. O dualismo presente na pseudo-busca por fiel representação do real, e a tirania do atentado ao privado. O comportamento anti-profissional midiático como principal responsável à banalização da criminalidade hedionda.


Sensacionalismo midiático e a banalização do hediondo

Fotos invasivas, laudos periciais, lágrimas e depoimentos precipitados. Elementos estes que configuram as coberturas radiotelevisivas da atualidade, na incontida ânsia de abocanhar números cada vez mais expressivos de audiência na programação. Casos semelhantes estão a se repetir, trazendo-nos aos presentes questionamentos nem sempre solúveis à primeira instância: Qual o limite entre o público e o privado? O que a lei tem a nos dizer sobre o poder invasivo da mídia brasileira? Qual o limite entre sensacionalismo e profissionalismo na indústria da informação?

Em verdade, a veiculação massiva do desespero particular deixara há muito de ser a coerente representação da realidade, tornando o sensasional ao simples alcançe do controle remoto. Segundo a democratica premissa da informação livre, temos uma sociedade que, sadicamente, entretem-se com a exibição sequencial de casos de violência e mortandade. São os chamados shows diários de sensacionalismo pseudo-jornalístico.

A que assiste tais programações, o termo "remoto" não definiria exatamente os ultimos acontecimentos. A relação de proximidade entre telespectador e emissor é mais que estreita. Como agravante, tais casos têm-se tornado cada vez mais frequentes, e não menos raro temos visto promotores, juízes e delegados burlarem a lei e, no ímpeto da busca por prestígio, divulgar à sedenta imprensa aquilo que é tido por confidencial. O mesmo ocorrera com a garota Isabella Nardoni, morta fisicamente em 29 de março, mas vívida pela terceira semana nas mais variadas progamações midiáticas, disponível a todo instante, a qualquer hora, exaustivamente. Hoje, Nardoni oferece melhores perspectivas de audiência que as telenovelas de melhores indices, dentro das maiores emissoras. Vê-se um impasse nesta questão: Enfrentamos a democratização da informação, ou a tirania da brutal banalização da realidade?

A relação de causa e efeito entre banalidade e violência confunde-se e se mescla a todo instante: A própria banalização da violência consiste em si numa processo violento e corruptor tanto dos direitos quanto da dignidade inata ao homem. Ainda que a violência seja biologicamente inerente à espécie como fator de evolução, tal comportamento a nível social não lhe é justificável: O homem não é a tábula rasa de Locke, e portanto, a pressão ambiental é significativa no processo de composição da personalidade individual. Segundo essa premissa, o processo cultural em que o assassínio é encarado trivialmente consiste numa agressão à consciência humana (agressão-em-si) da população exposta a tal processo, estimulo este que elicia o comodismo expectante por leis falhas, facilitador do esquecimento geral de crimes hediondos e a consequente frialdade para com o que deveria causar pavor e comoção.

Define-se a violência como sendo o comportamento que resulta dano a outro sujeito, vivo ou objeto. Entretanto, este dano pode também ser de natureza psicológica. Sendo assim, a imposição da voracidade pelo capital seria um estímulo mais que danoso ao social, no instante em que favorece a banalização do criminalmente punível. Considera-se, portanto, que a veiculação massiva do sofrimento alheio não é danoso somente aos familiares e próximos da vítima a que teve o seu particular tornado público, mas também à sociedade em integra, que se detêm à omissão frente a ditadura da banalidade do hediondo.


- Silier Borges

Artigo disponível no site Portal Tô Sabendo.

sábado, 5 de abril de 2008

Resumo: Pequeno artigo de opinião, que ressalta o caráter teórico-ideal da política e a grande incompreensão do termo, quando se tratando de governos e governistas. Relaciona os aspectos universais da "politicagem" e da mudança súbita de interesses nos discursos políticos estadunidenses.


Política, EUA... politicagem?

A política, não raras vezes definida por termos de caráter pejorativo tal como ‘politicagem’, costuma freqüentemente ser direcionada aos interesses sórdidos do capital e do poder pura e simplesmente. Esquece-se com freqüência que a política é a ferramenta da qual, quando utilizada coerentemente, deva propiciar a equidade social de sua população, e é justamente com a mesma que se compõe o que entendemos por Estado.

A valorização dos recursos humanos como mera mercadoria de trabalho é somente uma das variadas vertentes a que se configura a política, quando mal aplicada. Quando aliada às doutrinas de consumo, produtividade e individualidade, induz-nos a ignorar sua função primordial, quiçá vital. Tem-se o crescimento econômico, mas não se tem desenvolvimento econômico, que é a redistribuição igualitária dos bens produzidos. Adequando tais conceitos a questões, digamos, mais concretas, temos como objeto-de-estudo as eleições do país mais destacável no cenário mundial em termos econômicos (e a recessão que o diga), o EUA.


No site pessoal do democrata Barack Obama, estimado ao cargo de primeiro presidente negro dos Estados Unidos, vemos o desfilar de propostas incongruentes, e isso quando elas existem. O discurso recente de Obama, em mérito ao 40° aniversário de assassinato de Martin Luther King Jr., se apropria com facilidade da causa e da luta de outrem. Válido seria tamanha apropriação por alguém que, quando Senador, não tivesse se referido a questão factual do negro e seu processo de marginalização histórico tão levianamente: “Não existe uma América branca, nem negra. Existe o Estados Unidos da América”. Ao que parece, o candidato em questão nunca ouvira falar - antes de sua recente candidatura - sobre diáspora, Ku Klux kan, e outras manifestações de racismo contra o negro que também caracterizara o EUA.

Não pretendo somente criticar o candidato a em detrimento do b. O próprio esposo de Hillary, quando assumira a presidência, afirmara iniciar um debate “sem precedentes” sobre a questão racial. O que de fato ocorre é que o EUA continua sendo considerado, consensualmente, o país mais racista da esfera terrestre, mesmo depois do seu polêmico mandato. Caso de politicagem? Favorecimento de discursos em prol de ganhos pessoais? Não seria muito diferente do discurso, digamos, “convenientemente mutacional” do ilustríssimo Obama, agora preocupado com as chamadas questões raciais.

Critiquemos, pois, tamanho status quo perpétuo e de caráter universalista (pois no Brasil e outros países, o fênomeno não é diferente), que é a apropriação de situações delicadas e de cunho racial por governistas visando sua fatia pessoal no corpulento bolo da grande presidência das nações.


- Silier Borges

terça-feira, 1 de abril de 2008

Resumo: Neste artigo, questiona-se a falácia naturalista e sua visão limitadora, que vê a mulher como figura restrita a pequenas funções sociais devido a tendência comportamental biologica-evolutiva. A larga utilização de conceitos psicológicos pela indústria do marketing, como forma de eliciar comportamentos consumistas. O feminismo como alternativa moderna de superação da falácia naturalista.


Falácia naturalista, a mulher e a quebra de modelos biológicos evolutivos

As sociedades modernas, como perpetuadoras de paradigmas pré-estabelecidos pela ancestralidade, primam pela destacável preservação do modelo da supremacia fálica e da figura masculina no centro das várias interações sociais.

Desde os primórdios da espécie hominídea, o macho responsabilizou-se pela caça e pelos trabalhos mais dispendiosos, sendo que a figura da fêmea relegou-se à preservação das crias; Entretanto, por meio dessa premissa, surge a falácia naturalista, seguindo a afirmativa de que já que um homem ou mulher possuem determinadas tendências que os instigam a comportamentos pré-determinados, estas respostas primárias devam obrigatoriamente serem repetidas e estimuladas socialmente. Em suma, cai-se no erro ao afirmar que, se as mulheres cuidam das crias desde os primeiros sapiens, deve-se restingir-se a tão-somente tarefa de cuidar dos filhos no mundo contemporâneo, evitando pois o convívio com o trabalho e com outras áreas ditas masculinas. Presume-se, pois, a ideologia patriarcal com base em preceitos (ou melhor, preconceitos) ditos "científicos". Como consequência, marginaliza-se a mulher, esquecendo-se de sua autonomia.

Ademais, como romper com tamanho paradigma mascarada por pseudo-ciência, responsável pela confusão dos menos esclarecidos? é fato que nossa sociedade, mais específicamente a brasileira, apresenta comumente o que é senso comum maquiado pela agradável tintura de pseudo-ciência, ou como é popularmente apresentada, "ciência alternativa". Para tornar o quadro ainda mais polêmico, vemo-nos em volta de um contexto social de valorização da figura fálica no meio da mídia e marketing, como forma de atrair as mulheres para o consumo de produtos, por vezes supérfluos, no instante em que não contribuem (direta ou indiretamente) na preservação da sua própria existência.

A própria Psicologia, por meio de Freud, instiga-nos sobre o tema em que a mulher admira o objeto fálico por não possuí-lo biologicamente, questão fisiológica esta que facilita a apropriação de tendências comportamentais do inconsciente pela indústria do consumismo voraz. Para se ter uma idéia da dimensão da problemática, muitas embalagens de cosméticos são produzidos na forma fálica, eliciando o comportamento de compra pelo público-alvo feminino.

O fato é um: ainda somos animais com a evolução estagnada à 10.000 anos, sendo que a nossa evolução dá-se somente a nível cultural e tecno-científico, não mais por pressão natural, e sim social. Somos em essência animal-componente na natureza, mas acima de tudo, capazes de elaborá-la e redefiní-la (antroposfera). Nosso comportamento atual permanece sob decisiva influência dos temores que permeavam as selvas, conceito esse definido pela Teoria da Savana.

Voltamos a mesma questão. Se o comportamento androcêntrico é biologicamente explicável, seria correto que deva-se preservá-lo como comportamento estimável no meio social? A resposta é não. Muitas das conquistas do movimento feminista destacam a igualdade de sexos nos mais variados meios, seja do trabalho ao âmbito familiar. São muitas as mulheres que, hoje, sustentam a casa e que saem diariamente ao trabalho, enquanto seus esposos cuidam dos filhos e do lar.

Foram, e serão muitas as conquistas das mulheres nas sociedades da atualidade; fato comprovado pela tendência das mulheres em sobrepujar os homens na capacidade de realizar múltiplas tarefas, exigência esta de grande valor no mundo pós-moderno, caracterizado pela velocidade da informação. Ao contrário do que se possa pensar, sua biologia não a impede de exercer sua liberdade e sua busca por igualdade, muito pelo contrário: Ao que tudo indica, superará as expectativas e os modelos pré-concebidos, exercendo possivelmente cargos sociais e políticos de destaque nas sociedades que primam pela busca da democracia.

- Silier Borges