Até que ponto o Estado é laico?
Entretanto, qual a relação de tais autores abordados com o título proposto? A título de ilustração, em verdade que tais escritores se encontravam imersos em um dado contexto e, portanto, não detinham meios disponíveis para previsão elucidativa, e tampouco lhes eram disponíveis as primárias pesquisas no eminente âmbito da biotecnologia. Incomparável é o conhecimento da atualidade sobre o genética, com as pesquisas do campo que se iniciaram com efetividade na recente segunda metade do século passado.
Tal qual entes aprisionados em um contexto histórico relativo à sua gênese, distinguem-se certas religiões que de míopes encontram-se alheias às cíclicas alternâncias de consciência, mentalidade e realidades das várias nações contemporâneas. De forma que, indubitavelmente, fadadas estão à alienada elaboração de uma minúscula realidade conceitual, universalismo este que ignora particularidades regionais, geradora de um posicionamento retrógrado que conflitua à proposta básica da ética cientifica, que é o proporcionar ideal do bem-estar humano. Posicionar-se contra este anseio é posicionar-se contra o homem e contra a vida, paradoxo ideológico das religiões que renegam a proposta genética ou biotecnológica.
Questionamento que nos fazem refletir acerca do poder autônomo do Estado é a elevada influência dos vários grupos religiosos dentro da capacidade decisória dos governos. Tais grupos, detentores de emissoras radiofônicas, televisivas e cargos governistas, exercem forte influência nas massas e por meio do poder da indústria midiática, determinam quais políticos, dos mais variados cargos, estão aptos a serem eleitos. Neste ponto, pode-se considerar que, indiretamente, tal ou qual vertente religiosa possui poder de voto ou veto em decisões sociais. Decisões essas que, visivelmente, envolvem muito mais do que um mero corpo de fiéis: Envolvem toda uma sociedade provida das várias peculiaridades culturais, várias e divergentes ideologias religiosas. Até que ponto é moral a interferência de uma ou outra religião nas decisões de toda uma nação? Até que ponto é verdadeiramente laico o Estado?
Apesar da busca por poder e influência decisória serem características inatas aos indivíduos, não é justificável práticas sociais que estimulem tamanha influência nas decisões que vão muito além dos interesses de um ou outro grupo religioso. É cruel e opressivo o determinismo de influir nas múltiplas vontades comunais dos muitos grupos culturais identitários. Analisemos pois as realidades várias, antes de nos deter em análises intrínsecas quando dissertamos sobre algo do qual não detemos ao menos um mediano domínio.
A exemplo tem-se recente constitucionalização das pesquisas relativas às células-tronco embrionárias. Por diferença de um voto no Supremo Tribunal Federal (STF), do qual relativo ao ministro da Saúde José Gomes Temporão, fora aprovado o dito projeto. Os votos contrários eram todos relativos a governistas católicos extremistas. Concomitantamente a votação, deficientes físicos clamavam às portas do congresso por piedade e direito à vida. Ao que parece, são os contrários às pesquisas os incapazes de distinguir quem deve ser dotado do direito de existência: Os que vivem fadados à margem da dignidade devido a deficiências plausíveis de cura ou tratamento num futuro próximo, ou um conjunto celular de baixíssima possibilidade de concretização da existência, e como tal haveria de ter como inevitável destino o descarte em lixões sanitários. Sob visão crítica, tamanha indecisão nada mais é que reflexo da absoluta ignorância das destinações fetais ou consiste meramente em egocêntrica busca por poder.
A demagogia maior consiste no intuito de determinadas vertentes religiosas cristãs em vetar o avanço científico e a autonomia da nação brasileira. A pesquisa genética tornara-se inevitável verdade universal, já sendo admitida nos vários países europeus. Por meio da lógica, sabe-se: Uma igreja detém uma população menor. Violar as tendências mundiais é ignorar o que a população maior anseia, o que por sua vez, resulta na diminuição gradual do corpo de fiéis. Tal fenômeno retratado, fruto de um conservadorismo resquício da mentalidade de submissão feudal, é o maior responsável pela decadência católica nas várias sociedades contemporâneas.
Outro ponto a ser levantado e de igual relevância, é relativo à descrença de alguns em relação ao conhecimento produzido pela ciência.Todo conhecimento deve ser plausível de dúvida, e é esta possibilidade que alicerça um estado democrático. Dessa forma, deve ser respeitosamente considerada as convicções oriundas do pensamento científico, tendo em vista a rigorosidade da metodologia e das evidências produzidas. A ciência é o método efetivo capaz de proporcionar o bem-estar aos sujeitos, sendo este seu intuito primário. Na prática, são os empecilhos do capital e as questões burocráticas do Estado que impedem a democratização dos recursos, serviços e técnicas desenvolvidas pelo mesmo, e não uma suposta ineficiência da produção metodológica científica, como pensam os religiosos.
Ademais, vale salientar a recente constitucionalização da lei de células-tronco embrionárias, revolução legal que promoverá tratamentos a diversas doenças atualmente tidas como incuráveis. Os avanços da biotecnologia são visíveis, e portanto constitui em leviandade ou demagogia posicionar-se indiferente a tais conquistas. É de conhecimento comunal o poder de diferenciação das células-tronco, o que permitirá tratamento de doenças degenerativas de cunho genético, possibilidade impensada em se tratar por, digamos, rezas e orações. Deve-se salientar que são muitos os ditos do senso comum que, não raras vezes, consistem em resumos ou distorções de conhecimentos previamente elaborados, por meio da metodológica conduta científica.
- Silier Borges