sábado, 31 de maio de 2008

Resumo: Artigo que aborda a questão das legalidade das células-tronco, e o posicionamento das vertentes religiosas cristãs contrárias a sua aprovação. Tendo em vista os vários aspectos relacionados à temática, questiona-se posturas ideológicas religiosas, o caráter metodológico científico e o quão laico é o Estado.

Até que ponto o Estado é laico?

Sabe-se, antes de tudo, que Isaac Assimov, Phillip K. Dick e Arthur C. Clarke, expoentes máximos da literatura científico-ficcional do século vinte, têm obras altamente influenciadas pelos avanços técnico-científicos de seu período, tal qual a criação da Arpanet, sistemas de informação e desenvolvimento dos transistores, e portanto estão inevitavelmente inseridos nesse contexto histórico. Ademais, é inegável o caráter visionário dos respectivos autores: Apesar da não-popularização da robótica para fins domésticos no Brasil, em países de elevado investimento tecnológico, tal qual Japão, são produzidos em larga escala robôs destinados às mais diversas áreas e atuações dentro do cenário do cotidiano humano urbano ou rural.


Entretanto, qual a relação de tais autores abordados com o título proposto? A título de ilustração, em verdade que tais escritores se encontravam imersos em um dado contexto e, portanto, não detinham meios disponíveis para previsão elucidativa, e tampouco lhes eram disponíveis as primárias pesquisas no eminente âmbito da biotecnologia. Incomparável é o conhecimento da atualidade sobre o genética, com as pesquisas do campo que se iniciaram com efetividade na recente segunda metade do século passado.


Tal qual entes aprisionados em um contexto histórico relativo à sua gênese, distinguem-se certas religiões que de míopes encontram-se alheias às cíclicas alternâncias de consciência, mentalidade e realidades das várias nações contemporâneas. De forma que, indubitavelmente, fadadas estão à alienada elaboração de uma minúscula realidade conceitual, universalismo este que ignora particularidades regionais, geradora de um posicionamento retrógrado que conflitua à proposta básica da ética cientifica, que é o proporcionar ideal do bem-estar humano. Posicionar-se contra este anseio é posicionar-se contra o homem e contra a vida, paradoxo ideológico das religiões que renegam a proposta genética ou biotecnológica.


Questionamento que nos fazem refletir acerca do poder autônomo do Estado é a elevada influência dos vários grupos religiosos dentro da capacidade decisória dos governos. Tais grupos, detentores de emissoras radiofônicas, televisivas e cargos governistas, exercem forte influência nas massas e por meio do poder da indústria midiática, determinam quais políticos, dos mais variados cargos, estão aptos a serem eleitos. Neste ponto, pode-se considerar que, indiretamente, tal ou qual vertente religiosa possui poder de voto ou veto em decisões sociais. Decisões essas que, visivelmente, envolvem muito mais do que um mero corpo de fiéis: Envolvem toda uma sociedade provida das várias peculiaridades culturais, várias e divergentes ideologias religiosas. Até que ponto é moral a interferência de uma ou outra religião nas decisões de toda uma nação? Até que ponto é verdadeiramente laico o Estado?


Apesar da busca por poder e influência decisória serem características inatas aos indivíduos, não é justificável práticas sociais que estimulem tamanha influência nas decisões que vão muito além dos interesses de um ou outro grupo religioso. É cruel e opressivo o determinismo de influir nas múltiplas vontades comunais dos muitos grupos culturais identitários. Analisemos pois as realidades várias, antes de nos deter em análises intrínsecas quando dissertamos sobre algo do qual não detemos ao menos um mediano domínio.

A exemplo tem-se recente constitucionalização das pesquisas relativas às células-tronco embrionárias. Por diferença de um voto no Supremo Tribunal Federal (STF), do qual relativo ao ministro da Saúde José Gomes Temporão, fora aprovado o dito projeto. Os votos contrários eram todos relativos a governistas católicos extremistas. Concomitantamente a votação, deficientes físicos clamavam às portas do congresso por piedade e direito à vida. Ao que parece, são os contrários às pesquisas os incapazes de distinguir quem deve ser dotado do direito de existência: Os que vivem fadados à margem da dignidade devido a deficiências plausíveis de cura ou tratamento num futuro próximo, ou um conjunto celular de baixíssima possibilidade de concretização da existência, e como tal haveria de ter como inevitável destino o descarte em lixões sanitários. Sob visão crítica, tamanha indecisão nada mais é que reflexo da absoluta ignorância das destinações fetais ou consiste meramente em egocêntrica busca por poder.

A demagogia maior consiste no intuito de determinadas vertentes religiosas cristãs em vetar o avanço científico e a autonomia da nação brasileira. A pesquisa genética tornara-se inevitável verdade universal, já sendo admitida nos vários países europeus. Por meio da lógica, sabe-se: Uma igreja detém uma população menor. Violar as tendências mundiais é ignorar o que a população maior anseia, o que por sua vez, resulta na diminuição gradual do corpo de fiéis. Tal fenômeno retratado, fruto de um conservadorismo resquício da mentalidade de submissão feudal, é o maior responsável pela decadência católica nas várias sociedades contemporâneas.


Outro ponto a ser levantado e de igual relevância, é relativo à descrença de alguns em relação ao conhecimento produzido pela ciência.Todo conhecimento deve ser plausível de dúvida, e é esta possibilidade que alicerça um estado democrático. Dessa forma, deve ser respeitosamente considerada as convicções oriundas do pensamento científico, tendo em vista a rigorosidade da metodologia e das evidências produzidas. A ciência é o método efetivo capaz de proporcionar o bem-estar aos sujeitos, sendo este seu intuito primário. Na prática, são os empecilhos do capital e as questões burocráticas do Estado que impedem a democratização dos recursos, serviços e técnicas desenvolvidas pelo mesmo, e não uma suposta ineficiência da produção metodológica científica, como pensam os religiosos.


Ademais, vale salientar a recente constitucionalização da lei de células-tronco embrionárias, revolução legal que promoverá tratamentos a diversas doenças atualmente tidas como incuráveis. Os avanços da biotecnologia são visíveis, e portanto constitui em leviandade ou demagogia posicionar-se indiferente a tais conquistas. É de conhecimento comunal o poder de diferenciação das células-tronco, o que permitirá tratamento de doenças degenerativas de cunho genético, possibilidade impensada em se tratar por, digamos, rezas e orações. Deve-se salientar que são muitos os ditos do senso comum que, não raras vezes, consistem em resumos ou distorções de conhecimentos previamente elaborados, por meio da metodológica conduta científica.


- Silier Borges

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Resumo: Parte final da série de três artigos, a respeito das relações entre moralidade cristã, a proposta de ideal humanista, e a relação da mesma com a proposta ateísta, frente as adversidades da contemporaneidade.

O ateísmo como proposta humanista -
(Quando moralidade vira sinônimo de passividade - Parte 3, Final)

Na série dos artigos que precederam o presente ensaio, questionara-se o poder da religiosidade em proporcionar à sociedade contemporânea, metas éticas que sejam seguidas tão intensamente quanto os dogmas dos vários credos ocidentais. Ainda que, em discurso, defensora da onipotente deífico, pouco potente são as religiões e divindades na repressão e impedimento moral de atos repugnáveis socialmente.

Concomitantemente as transformações nas relações sociais mundiais, surge a eminente necessidade do estabelecimento de responsabilidade moral, normas éticas e padrões comportamentais majoritariamente aceitos por concenso, por meio da técnica da razão, remanescente da capacidade superiora de auto-dominação do dotado pensante sobre os impulsos individuais, impulsos estes, a priori, motivadores das remotas sensações instintivas que parcialmente configuram os desejos humanos. A demanda emissiva por uma sociedade seguidora de valores como justiça e equidade social não é mero fruto de uma construção histórica e temporal, mas resultante da onipresente vontade do grupo numericamente maioritário (e, geralmente, grupo este menos favorecido) em democratizar os vários bens, recursos e, enfim, riquezas globalmente disponíveis.

De sumária importância é a reversão do presente quadro de conflituosa antítese nas relações humanas: Quando em grupo, prega-se os valores transcendentais, mas individualmente pouco posto em prática. Como superar este paradigma se não por meio do estabelecimento de novas normas capazes de nortear coerentemente as práticas humanas, por meio de uma visão humanista de mundo?

Tem-se comumente visão engessada das filosofias que contrastam a predominante moralidade cristã. Por meio do poder de inquestionabilidade inerente aos dogmas e demais preceitos religiosos, pouco discorre-se sobre a capacidade produtiva das demais. De tal forma que, com base no senso comum, ignora-se o poder humanista da proposta do athéos. Sob princípios do ateísmo, a uniformidade de comportamentos (ética) não deve ser proporcionada por uma entidade especulativa plausível de poder místico-punitivo, mas pelo reverenciar de um Estado laico dotado de plenos poderes de executar e legislar. Através dessa premissa, a ordem social se estabeleceria por meio da supremacia apolínea da razão e do poder crítico conferente à espécie, não mais pelo simplório temor da punição em iminência, sempre questionável quando oriundo de divindades e seus obscuros ou nem sempre compreensíveis desígnios.

Dessa forma, sob a ótica humanista-ateísta, atribuiria-se valor ao homem e tão somente por ser homem, não como ente submisso às forças naturais, tampouco como sujeito superior a natureza que verdadeiramente o integra. Ainda que ideologia utópica, as questões da atualidade seriam sanadas sob essa perspectiva teórica: Os recursos naturais seriam explorados parcimoniosamente, sob a ótica de integração de homem e mundo; a angústia da existência e do caráter punitivo de pós-mundo seria eliminado, no instante em que se compreenderia a impossibilidade lógica de tal mundo incorpóreo; o desaparecimento das angústias existenciais seria consolidado pela compreensão da impossibilidade de vida pós-morte, que por sua vez geraria a
proeminente necessidade de atribuir valor aos semelhantes enquanto indivíduos dotados de suas respeitáveis particularidades. Os prazeres capazes de eliciar satisfação e bem-estar, tal como busca epicurista pelo ideal de felicidade, seria almejado pela vontade em comum, visto que só o que é dotado de raridade, pode ser dotado de empenho e dedicação: Tal qual a vida. Considerada desde então universalmente única, cultuada a existência seria como expressão máxima altruísta e simbolo ou bandeira do bem comum (carpe diem, para os barrocos e seus gênios conflituosos).

Ainda seja perceptivel a força egoísta que, como dita no artigo anterior, é inato ao homem desde seu primórdio, a artificialmente elaborada proposta do humanismo é sim possivel e associável a alguns conceitos de caráter ateísta. Obviamente que, sob orientação do razoável, o objetivo desta série de artigos não é propor novos modelos comportamentais universais, até porque tal proposta na prática talvez se revelasse em algum ponto incongruente, ou mesmo impraticável. Em verdade, os objetivos do presente ensaio nada mais foi o de revelar ao caro leitor o poder alienatório de preceitos cristãos, que por sua vez construira ao longo de sua vasta história, série de preconceitos e repúdios a filosofias tanto ou mais coerentes que as suas. Que entidade papal há de afirmar, veemente, onde está o paganismo?

- Silier Borges

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Resumo: Reflexões a respeito da incapacidade das várias instituições em suprimir a criminalidade por meio de uma ética religiosa, situação esta de caráter paradoxal, quando se observa que o egoísmo é característica inerente à espécie hominídea.

Farinha pouca, meu pirão primeiro -
(Quando moralidade vira sinônimo de passividade - Parte 2)

Se as instituições tradicionais pregadoras da sacra moralidade e baseada nos preceitos e paradigmas cristãos, não se revelam capazes de suplantar a prática da criminalidade mesmo no seu corpo de fiéis, deve-se obviamente substituí-la por filosofias que, na prática, gerem resultados estimáveis e efetivos. Ainda que as várias religiões ocidentais mantenham uma visão equivocada dos outros ideais que lhes contrastem, há mútua concordância no resgate a uma posição humanitária de um homem que tornara-se, com o advento da competitividade, ainda mais desumano.

Mas quem é digno de tentar retratar, numa vã tentativa e sob o ponto de vista defensório, uma humanismo que escapa aos dedos humanos desde sua perspectiva existencial e ancestral? Tal coisa não nos é claramente possível; Afinal, o homem é egoísta e isso lhe é inato, ainda que o altruísmo recíproco, fruto de uma artificialidade social, lhe tenha sido elaborado como mecanismo de sobrevivência em meio a hostilidades várias. Para Freud, ao resgatar reflexões pertencentes ao filósofo grego Epicuro, o homem é sempre impulsionado pelas suas necessidades sensuais básicas, do qual denominara princípio do prazer. Este princípio é imediatamente confrontado com o da realidade, que são as convenções sociais que nos impedem de realizar os anseios mais imediatos. Desde o iluminista Hobbes, sabe-se que o homem é o lobo do homem, aforisma precípuo na compreensão de um individualismo bem conhecido do coloquial: farinha pouca, meu pirão primeiro.

Ainda que o Thomas Hobbes acrecentara o fato deste egoísmo ser inerente ao homem tão-somente em estado de natureza, portanto ausente de ética social, tal preceito nada mais era que resultado da tentativa do filósofo justificar o Estado absolutista em plena modernidade e decadência desse mesmo sistema político. Ademais, sob a bandeira liberalista, Rosseau e seu bom-selvagem afirmara que são as pressões sociais que tornam o homem essencialmente egoísta. Em verdade, os dois estavam parcialmente errados. As pressões de um ambiente hostil ancestral pressionara os primeiros hominídeos a se socializar e buscar os interesses de um grupo em quanto suplantava os individuais, mas ainda assim sabe-se que sobrevivera graças à capacidade de auto-preservação, que invariavelmente condiz com o comportamento de valorar si em detrimento doutrem. Mais tardiamente, com o findar da sociedade gentílica, democraticamente baseada em decisões comunais, a competitividade eclode e retorna-se ao ponto de partida. Sobrevivem os que mais detém: sejam os latifúndios no medieval, seja o conhecimento na modernidade, seja o poderio econômico na comtemporaneidade.

O surgimento da propriedade privada está intimamente ligado ao discutido: Para o homem, é confortável e agradável ter enquanto outros não tem, lhe é antigo o exclusivismo. A suntuosidade independe das civilizações, pois lhe atrai. Desde que a arte surgira, até o seu florescer com o mecenato renascentista, busca-se simbologias relativas à superioridade dos grupos e a busca por status.

Entretanto, qual seria o intencionar deste artigo, se não afirmar que o egoísmo é inato ao homem por característica, e fortalecido pelas relações sociais e políticas ao longo de sua existência? Erradicar a fome é em tese possível, desde que o homem não mais seja homem ou, em outras palavras, deixe de ser egoísta. Os empecilhos burocráticos são sempre citados quando se debate este quesito, mas a existência do sofrimento de muitos e o deleitar de poucos é fênomeno de caráter atemporal e universalista, e sendo assim, nada mais é que mero reflexo de uma verdade histórica e de um poder natural, o irreversível destino do homem eterno-egoísta.

- Silier Borges

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Resumo: Questionamentos que retomam casos de homicidios da atualidade e questionam a atitude passiva, quando não exacerbadamente emocional, dos que acompanham tais ocorrências. Que fazer quando são os moralistas, os cometedores de infrações cada vez mais brutais ou amorais?

Quando moralidade vira sinônimo de passividade - (Parte 1)

Frente às adversidades das relações humanas na contemporaneidade, aviltantes das almas mais conservadoras e também das mais recentes, vê-se o desfilar de uma violência banalizada pelo processo que prima pela informação volatilizada, mas que ignora a eminente necessidade de humanização comunal.

Casos frutos da obscuridade das atrocidades humanas como Nardoni, Hélio, Ivo e uma centena de outros, são inequivocadamente comparáveis a outros casos que, concomitantemente, insistem a ocorrer no mundo. O sr. Fritzl e sua filha violentada pelo pai por vinte e quatro anos ininterruptos, recalcam uma onda de crimes hediondos considerados pecaminosos mesmo para um indivíduo pouco espirituoso. E mais ainda: Representam a horrenda universalidade do atroz. Tornara-se inato ao homem, o dito desumano?

Ainda que tratado com excessivo esmero pelos que acompanharam os noticiários, é fato que muita dessa atenção dispendiosa seja fruto de um sadismo elaborado pela indústria do entretenimento, ao primar pela soberania dos interesses mútuos: índices de audiência para a enlutada indústria midiática, prazer e diversão para a sua população entediada por tudo aquilo que lhe é rotineiro. Tudo, evidentemente, baseado no macular do sofrimento alheio em pleno horário nobre. Abram-se as cortinas, liguem os canais, já iniciara o show daquilo que é brutal, mas que aos poucos relaxam e gradualmente se intensificam em permissividades...

São nestes instantes que questiono o poder de efetividade da moral religiosa em reprimir o avançar das tempestuosas ondas de violência que assolam as várias sociedades do planeta. Questionamento este dotado de precípua relevância, no instante em que nos remete ao fato que, mesmo no âmago de umas ou outras instituições religiosas, tais atos hedonistas persistem a eclodir como um mal ainda não completamente extirpado. Pelo contrário, ao que se verifica, tem-se acrescido e se tornado cada vez mais evidentes nas últimas décadas. Obviamente que todos estão suscetíveis a erros; mas quando o erro torna-se banal por entre os que estimam o ideal de perfeccionismo ético, a situação realmente se revela no mais profundo Devir.

- Silier Borges