quarta-feira, 30 de julho de 2008

Resumo: O artigo remete-nos à vida e obra de Franz Kafka, autor repleto de traumas e frustrações, porém ávido escritor de incomparável senso crítico. Passeio sobre as diversas obras do autor que quase incinerara seus próprios escritos antes de falecer. Os escritos permanecem. A literatura agradece.

Um homem em metamorfose
(ou Vida e obra de Franz Kafka)


A princípio, o leitor distraído pensaria o presente artigo tratar-se do saudoso Raul, gênio criativo da irreverência e, assumidamente, um ente em ambulante metamorfose. Doravante, disserta-se sobre outro campo das várias inteligências humanas, que não da sonoridade musical. Trata-se em verdade do silenciador de floreios literários, pensador de seus próprios traumas, hábil tecelão do cotidiano burguês frente ao absurdo que é a existência. Seu nome: Franz Kafka, inspirador do paradoxal porém crítico surrealismo-realista e, certamente, um dos mais respeitáveis autores do século que nos antecede.

Sabe-se no meio artístico que os escritores escrevem se não variações de si mesmos, repartições ou variáveis peculiares de imagens intrínsecas auto-construidas (self), em maior ou menor grau. Escrever é, devida e invariavelmente, um ato de se contar. Ignorando tal premissa, são poucos os verdadeiramente aptos à compreensão da literatura kafkiana, o que se deve por puro desconhecimento de sua história biográfica (por contraste, fabulosamente vasta). Para retratar coerentemente as angústias do homem moderno perante o avançar das transformações socio-econômicas do capitalismo industrial, e por sua vez a ascensão de classes médias comerciantes judias do século dezenove, é necessário compreender a turbulenta alma de uma criança que, frente aos tormentos de ríspida infância, via-se como minúsculo inseto daninho (palavras do autor) frente a grandiosidade-idealizada do pai Herrmann Kafka. Em Cartas ao Pai, obra literária de reconhecível valor e que porém nunca entregara ao pai, Franz disserta sobre os malefícios da criação paterna, castradora das vontades familiares e individuais. Fala com o pai-leitor, e que, porém, nunca o lerá. Em curiosa dubiedade, busca reconciliar-se com o mesmo, no mais áspero dos tons acusatórios.

Do autor de A Metamorfose, elaborada obra onde retrata as angústias do Gregor Sansa, caixeiro-viajante que dado dia acorda metamorfoseado num pegajoso inseto, confunde-se criador com criatura. Num ambiente dadá dotado de leis regentes próprias, Gregor vê-se incapaz de levantar-se para o trabalho e de reatar o relacionamento com a família, visto que encontra-se em estado grotescamente inumano. Vemo-nos naufragar numa narrativa que nos encaminha aos obscuros meandros da mente transtornada, que nota a incoerência de um sentido para a existência. Até que ponto lidamos conscientemente com a monstruosidade da existência? A qual instante vemo-nos traídos por aqueles a quem dispensamos, cegamente, esforços inumanos? A que instante vemo-nos degradados por escolhas alheias a nossas vontades? Estas são apenas algumas das várias questões a que nos somos indagados, sem respostas autônomas ou receitas de bolo. O pai do Gregor, em sua grandiosidade esmagadora do insignificante inseto, representa o próprio pai de Franz Kafka. A vítima que, mesmo na literatura, não consegue se desvencilhar do onipresente algoz: "Da minha literatura, queixo-me de tudo aquilo que nunca pudera dizer ao teu peito", confessara nas linhas de Cartas.

Da sua aclamada obra-prima O Processo, tem-se Joseph K., bancário que numa dada manhã vê-se preso e sobre ele um processo judicial do qual nunca se sabe a razão. Apenas vê-se enfurnado em forças alheias que o mesmo não compreende; aliás, temática esta comum de todas as obras do autor. Mais do que uma premonição das burocracias opressoras do indivíduo ou dos regimes totalitários do século vinte, O Processo representa a inconsistência de qualquer tentativa de explicação de nossa vazia existência, incompreensível devido a seu caráter superior, pois alheio a qualquer tentativa de elaboração meramente mundana. Resta aos seus personagens o auto-conhecimento, e nada mais, tal como predissera Sócrates em seus varios adágios acerca das falácias promovidas pelo sensorial. Conhece a ti mesmo...! determinara o filósofo. Kafka, veemente, o cumpria.

Oprimido por várias doenças, exausto do frágil pulmão a que lhe impunha rígidas sansões, oscilante dos vários casamentos feitos e desfeitos, não raras as vezes em que fora internado em sanatórios. Algumas das vezes, mantinha relações amorosas com internas. Sua própria sexualidade é vista por estudiosos como conflituosa, quando se apercebe a inaptidão social que aflingia o traumatizado autor do visceral O Veredicto. Por sinal, é nesta obra (escrita em um dia ininterrupto) em que, no início da carreira literária, diz nos seus diários pessoais "ter descoberto a maneira de tudo dizer, da chama que o consumia voraz". Outro momento, escrevera não gostar "de conversas que não fosse de literatura, e até mesmo as conversas de litaratura me chateia". Aparentemente rígido, Kafka confessa em Cartas da sua personalidade fraca e excessivamente insegura, resquícios da traumática criação que obstruiu-o e o tornou inapto socialmente, mas que feliz ou infelizmente, trouxe-nos um dos mais notáveis escritores existencialistas que perpassaram sobre este globo.

Frustrado perante a vida e sem grandes reconhecimentos literários à época, uma dada vez, antes da morte, recomendara ao amigo e futuro biografo Max Brod que queimasse todas as obras por ele realizadas e não publicadas. Sua vida estava assinalava nos textos, que o constrangia. Nunca iria supor publicar a exemplo, sua mais íntima obra, Cartas ao pai. Graças à fiel-traição do amigo, seus temores, seus medos, mas acima de tudo sua ávida criatividade e incomparável senso crítico, divagaram-se para todo o sempre nas seletas linhas da habilidosa literatura mundial.

- Silier Borges


sexta-feira, 18 de julho de 2008

Resumo: É fenômeno admitido publicamente a ausência dos valores morais tradicionais que outrora permeavam as instituições familiares, no âmbito político. Vejamos acerca dos fatos que recentemente se sucedem.

A(s) crise(s) da moralidade política

Embora haja a lei do Eterno Retorno, onde todos os fatos tenderão a se repetir num infindo espiral histórico (teoria do filósofo Nietzsche), não é crível aceitarmos, passivamente, incabidas imposições da má política de gestões públicas. O fato é que a crise da moralidade política aflige nações e é fenômeno mundial.


Dessa forma, descartemos pois, de imediato, a preconceituosíssima paráfrase de "bom jeitinho brasileiro". Logo, há de se saber: Michelle Bachelet, atual presidente do Chile e também torturada durante o regime Pinochet (1970), divulgara que fora encontrada inúmeras ossadas deste mesmo período despótico. De vítima, tornara-se algoz; Dissertara que "fará o possível para a identificação das vítimas" (...), porém é de se notar que dos quinhentos militares do regime Pinochet investigados, apenas vinte e cinco já foram punidos. Augusto Pinochet, como todo bom político, falecera a dois anos, antes de qualquer possível reprimenda às atrocidades cometidas. Restaram aos chilenos pesaroso saldo de três mil mortos e mais de vinte e oito mil torturados.

Como não poderia deixar de ser, o Brasil revela-se excelente reprodutor de má condutas políticas. Afora mensalões, mensalinhos e sangue-sugas do capital nacional, mais recentemente vê-se sem grandes louvores, a prisão do Salvatore Cacciola, responsável por milionário rombo nos cofres do Estado brasileiro. Ínfimo fato. Estava a passear, por digamos uns oito anos, na (como diriam os locais) molto bello Itália. Como desfecho ao surrealístico quadro, Cacciola a afirmar veemente que não estivera foragido. E o ministro do STF Marco Aurélio, outra excelência política, a confirmar a alegação que de fato Cacciola nunca estivera foragido e que ele, do próprio punho, dera autorização para a longeva viajem do mais novo caixeiro-viajante.

Uma dada vez ouvi, no coletivo, uma senhora feirante a comentar com outra: "São tantos os corruptos em que votamos e passam tão rápido na tv, que nunca dá pra notar quem é quem". Deve ter sido isso. Marco Aurélio, confuso na sucessão de eventos amorais que se sucedem perante os olhos ministeriais, talvez esquecera de anotar o nome Cacciola. Ou, quiçá, o ingênuo nome Luis Inácio e seu amigásso Celso Pitta (digo do Celso, porque o Renan já é passado). E tantos outros que nem ao menos hão de constar na impontuável lista da Polícia Federal. Se vivo estivesse o saudoso Joaquim Osório, diria o poeta do nosso hino: E o sol da liberdade, em braços fúlgidos, brilhou no céu da Pátria nesse instante...

- Silier Borges

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Resumo: A violência urbana, temática constantemente abordada nas páginas jornalísticas, retorna às letras do presente Blog. Até quando...?

O sussuro dos inocentes

Três ou quatro nomes ditos nos noticiários, e em breve tornam-se números. O que era indivíduo, dotado de plenas poderes a que se confere aos cidadãos de uma pseudo república democrática, tornara-se estatística.

Em meio ao clamor geral, ânimos de desfavorecidas classes à flor da pele, prefeitos e governadores a silenciar-se, taciturnos. Conto-lhes não tão-somente de um caso repetidas vezes ditas neste e doutros blogs, mas inclusive, do mais recente hediondo relato: O pequenino João Roberto (não o João Hélio, outro), a perecer, ingênuo, perante truculenta operação da chamada "segurança pública" (desconfie) do Rio. Somente a mãe sobrevivera, ainda que a figura paterna não estivesse presente (...). Sabe-se: Os dois policiais supeitos, de fato, alvejaram o veículo familiar com o até agora expressivo número de dezessete perfurações.

E o breve sussuro, ocasional, fez-se ouvir: Na televisão, pequenos-burgueses a exigirem explicações de ditas autoridades. Em entrevista à polêmico noticiário, os pais do mais novo João vitimizado disseram que não haviam de aceitar desculpas do secretário de segurança José Mariano, ou quem quer que fosse. Aparentando-se condoído, o secretário começara o discurso com um sonoro "Nenhum argumento vai justificar o injustificável...". Ao menos, uma fagulha de ocasional sensatez. Que por sinal, em questão de minutos, a ir por terra em duas lunáticas declarações: "O Rio não está sem controle..." e "a cidade vive uma queda expressiva nos índices de criminalidade...".

Em silêncio, o inconformado telespectador revolta-se, num pranto inaudível. Qual dos poderes no Brasil dispõe-se a pacientemente escutar, hoje, um surdo sussurar dos inocentados? Os soldados (agora, os mais recentes e fidedignos aliados do tráfico) que vitimizaram três jovens do Morro da Providência, saberão que farão tais vítimas no pós-mortem, se não deixar-se embalar ao sono dos eternamente anônimos? E dos sobreviventes familiares, que hão de fazer, dos amputados em corpo e alma e voz?

A emblemática figura de Protetor, de tempos há muito passados, outrora normalmente relegada ao policial, confunde-se comumente com o carrasco dos tempos modernos. Mocinhos e bandidos, num ensandecido paradoxo, mesclam-se e fundem-se. Neste meio termo de fictícia-realidade non sense, concretiza-se a inversão de valores político-sociais: Os presos, punidos à soltura; Cidadãos de bem, por sua vez, condecorados (por gregos...?) com o símbolo urbanístico do medo que paralisa: A prisão domiciliar.

- Silier Borges

terça-feira, 1 de julho de 2008

Resumo: A palavra nem sempre liberta. Este artigo aborda o poder exacerbado que detém a linguagem, presente ao longo da existência humana como significativo instrumento de repressão. Desta forma, correlaciona escritos de George Orwell e Platão, pensadores de diferentes tempos, porém que dissertaram sobre a temática em comum.

A repressão, o poder e a escrita -
(
ou A Força do Intelectualismo Platônico)


O exacerbado poder valorativo da intelectualização, empregado na eterna busca de superação dos meandros da obscuridade, remete acadêmicos e não-acadêmicos à procura de visibilidade social. Tal fato é, inegavelmente, resquício de um pensamento que permeia sociedades desde o nascimento da filosofia clássica.

Por vezes de caráter sofismático, são muitos os que se põem a escrever, expondo o prosador a ridículos que poderiam facilmente ser evitados. Se desconhece o conteúdo a ser exposto, recomenda-se comumente que não se escreva. Corretíssimo conselho.

É da história humana atribuir grande valor às ditas 'verdades' que sobrevivem sob um dado pedaço de papel. E não se trata tão-só de textos exclusivamentes de teor religioso, ainda que os mesmos sejam destaque e liderança em escritos que sobrevivem desde as mais remotas construções sociais. Esquecem-se os mesmos que, mesmos os mais sacros dos artigos, estão fadados a adaptações graduais a interesses políticos e transformações histórico-sociais, portanto, tal como afirmara Heráclito, todo cosmos e tudo que lhe é construido é mutável. Entrementes, também mutável são as escrituras, sejam sacras ou profanas.

Sobre a inconstância do mundo, e das adaptações do que se disserta a uma dada situação política, escrevera George Orwell a Revolução dos Bichos, obra que antropomorfiza animais como mecanismo metafórico de crítica às ditaduras e as intelectualizações. Na obra, a revolução do Estábulo é mercada pela supermacia dos animais frente à dominação da humanidade sobre o mundo. Perante a vitória da animalia, estabelecem-se os "7 mandamentos", conduta ética de todo animal a ser seguida desde então. Ao decorrer da obra, com a transformação do ideal revolucionário democrático em imposição despótica, os sete mandamentos são constantemente modificados às vontades e intenções do porco ditador Napoleão. Carregado de humor e ironia, Orwell quisera dizer, em verdade, que escrever é também instrumento significativo de dominação. A palavra nem sempre liberta: A integral e completa dominação não é meramente física, mas perfeitamente fruto de repressão ideológica e linguística.

Dominar a linguagem, num cenário mundial onde catástrofes e ameaças naturais e políticas constituem ameaça, é ainda privilégio de poucos. Notório o fato, pois observemos que, somente no Brasil, dados oficiais afirmam em média 12% o indice de analfabetismo. Que dirá o analfabetismo funcional, que é má capacidade de interpretação e elaboração de textos de mediana dificuldade? A complexidade do código penal e dos instrumentos legais de aplicação da lei, inclusive, são outros grandes meios excludentes de massas, e portanto, supremacia das classes intelectuais e intelectualistas do país. Polêmico, ademais voltemos ao assunto.

Embora o docente Sócrates nada escrevesse, seu sucessor Platão foi o derradeiro pensador grego a contribuir ao intelectualismo exarcerbado, que ignora a contribuição do trabalho físico ao engrandecimento e construção social. Espelhara-se nas Faculdades da Alma por ele elaborada, e refletira-a num ideal de sociedade. Neste ideal, estaria relegado aos pensadores e filósofos o atributo de augusto, imperador e governante. O ápice da tríade das faculdades intrinsecas ao indivíduo é o Pensamento. Para o filósofo Platão, atribuido à base da pirâmide intrinseca é o aspecto Sensual, componente relacionado às necessidades básicas da existência (força física e atividades puramente mecânicas). Afinal, para Platão o mundo físico e material consiste em mera e imperfeita reconstrução de um plano místico de idéias. São, portanto, relegadas a segundo plano as atividades que em verdade são essenciais na manutenção de qualquer ordem social.

Atribuir significativo valor ao que é escrito, ao que se sabe, não é de agora. Porém, é a filosofia que tem como precussora a estimulação deste comportamento social, que impregna, nem sempre positivamente, academias e universidades mesmo hoje.

- Silier Borges