sábado, 16 de agosto de 2008

Resumo: A literatura musical de Caymmi, autor distante, temporal e geograficamente, de uma terra que em verdade inexiste. Observação crítica da Bahia atual e a da qual o cantor tanto louvara.
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Caymmi, a genuína Bahia e os tempos de agora
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Muitos entristeceram-se. Falecera Dorival Caymmi, aos 94 anos, aquele que soube conviver com a mulher por duradouros sessenta e oito anos. Foram setenta anos de elaborável conteúdo musical, longeva carreira. Falecera, trazendo-nos questionamentos acerca do Estado da Bahia.
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Soteropolitano, nascido em quatorze de abril nos anos vinte do século passado, superara-se ao aprender, auto-didata, a linguagem musical extraída do violão. Vinte os discos gravados, inúmeras músicas representadas por legiões de artistas nacionais, que bem souberam valorizar os dotes baianos de se dizer universal.
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Consagra-se com O mar, Maracangalha, A lenda do Abaeté, Samba de Minha Terra, dentre muitos outros. Doravante, é plausível notar que o objetivo do presente texto não é exatamente o do louvor ao baiano e quase carioca Caymmi. É importante salientar suas letras no contexto contemporâneo. Dissera, numa dada canção, Saudade de Itapuã. Igualmente importante é notar que ainda jovem mudara-se para Cidade Não Tão Maravilhosa: De Itapuã, restaram os altos índices de criminalidade da cidade do Salvador. Passar uma tarde em Itapuã, digo, já não é tão romântico quanto se supõe. Doutro dia, soube dum defensor das inalienáveis dunas brutalmente assassinado, por defender interesses contrários aos grupos de construtoras, detentoras de considerável poder regional. Querem as tenras areias, outrora alvas, para construção civil. E que dizer das invasões, das ancestrais matas, igualmente violadas pelo poderio privado?
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De fato, 'A Lenda do Abaeté' é alguém chegar lá com uma câmera, e retornar em mãos com a mesma. Do que a baiana tem, sabe-se de gloriosa beleza que atrai, como sedentas maripousas ao lampião, estrangeiros repletos de fantasias musicais, verdadeiros investidores do turismo sexual. São tais, certamente, os contribuintes diretos da prostituição e da marginalidade. E a xenofilia, incentivada pela indústria da mídia e turismo, a bajular os homens de todo o mundo, atraindo-os por uma caricatura da corpulenta Baiana e de uma Bahia que não mais existe.
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Luís Inácio, aparentemente condoído, decretara luto oficial de três dias para a Bahia. Muito antes da morte de venerável figura, sob protesto das degradações e cegueiras políticas diárias, tal luto fora proclamado. Pena do Caymmi. Morrera saudoso de uma Maracangalha: Uma onírica Pasárgada, terra que inexiste.
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- Silier Borges