sábado, 27 de setembro de 2008

Resumo: Análise crítica da temática abordada no filme "Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago. Para tal, remete-nos a questões próprias da chamada "consumolatria" e da dialética relação entre individualismo e coletivismo.
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A cegueira e a ausência de ensaios
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Com recente exibição do filme "Ensaio sobre a cegueira", da obra honônima de José Saramago (nobel de literatura), têm-se uma ruptura com a modalidade tradicional de cunho essencialmente conservador na produção de longas-metragens. Para tal, recorre-se ao hábil recurso de poesia fotográfica das grandes capitais mundiais, e aliado à prosa visceral literária do qual brotara, o resultado tornara-se unicamente encantador.
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Elogios à parte, pode-se deduzir série de questionamentos que nos trás presente obra cinematográfica. Tal como a arte que nasce do plástico, objeto de uso moldável e portanto esquecível e suscetível ao descarte, a visão é nos tida como castradora de uma possível percepção humanista, paradoxalmente, do próprio homem. O meio sistêmico de produção, a alienação da força de trabalho e o resultado final do produto elaborara, conjuntamente, uma perspectiva de indivíduo inócuo e de tolices oníricas, intimamente dependente do objeto por ele manufaturado. Instaurado o consumismo, ou dita "consumolatria", estabelece-se o materialismo do descartável, reverenciado culto do inerte.
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A metafórica cegueira, portanto, dos indivíduos em meio a um cenário de catastrófica desolação, numa cidadela de lixões tecnológicos, ressalta o caráter de um homem que, em meio a rotina do metodicismo, exclui as possibilidades acerca de si mesmo e dos outros. Os relacionamentos interpessoais e as exigências do super-ego freudiano, imposições morais necessárias para o mútuo convívio, se esvaem com a súbita patologia. O homem em estado de natureza é brutal, mas que seria do homem contemporâneo em indiferente estado de sociedade? Quem ousa dizer-se vidente para o sofrimento que brota dos becos e concreto, todos inexoráveis, porém inexistentes aos sorridentes alheios? Não haveria de ser diferente, onde as linhas cartesianas do urbanismo alinham-se ao individualismo como conduta, pregador do coletivismo como prática ultrajante.
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Notável o súbito retorno da visão dos cidadãos aparentemente infectos. A obra conclui que, devido a ausência da experiência da cegueira, futuramente cega será a protagonista, única que misteriosamente se isentara da referida patologia. Cega em terra onde todos são videntes. Cega, pois, para alcançar a sabedoria de conduta, é necessário perpassar empiricamente pelas famigeradas fileiras tétricas da ignorância, sem deixar de refletir acerca do quão miserável e mesquinha pode tornar-se a existência humana.
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- Silier Borges

sábado, 20 de setembro de 2008

Resumo: O artigo que se segue, remete-nos a questionamentos referentes ao moral e amoral, a relação da ética e jurídica, sem portanto assumir a imprudência das buscas por respostas cartesianas, objetivas. Atribui à sociedade moderna, destacavelmente, não a crise de valores, mas reavaliação de impregnados valores ulteriores.
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Os limites do moral
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Compreende-se, ao menos alguns, a moral como convenções histórico-temporais e, portanto mutáveis, que norteiam o comportamento social e cultural humano. Diversas morais coabitam em tempo e espaço, porém são compartilhadas por dado grupo significativo e identificável.
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A ética, ao assumir definição destacavelmente simplificada, pode ser entendida como o aspecto jurídico, normativo e sistêmico da concepção de moral. Na contemporânea sociedade, bem se sabe acerca de valores não exatamente deturpados (pois afirmar tal seria, no mínimo, imprudente com fatos do porvir), mas em evidente mutação. A crise das instituições secundárias, e no mesmo bojo se ressalta a Religião, corrobora com consequências graves no fenômeno da ruptura de referência de indivíduos sociais com coletivo que o permeia.
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Avaliemos, pois, a assombrosa guinada de infanticídios em sociedades que a condenam (moral e eticamente) como abominável crime, ato de repúdio à vida e portanto à existência. Os números aumentam e alavancam numa crescente. Qual tese, portanto, explica grosseiro fenômeno, a nos agredir, retirando-nos de alienados devaneios outros? Mortes sempre houveram. Afirmar que a crise de valores religiosos é responsável, é deveras imprudente: Casos de homicídios são inefavelmente significativos em sociedades altamente religiosas. Neste ponto consiste grande paradoxo.
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É importante salientar que, como já fora dito, são os valores que norteiam sociedades, incorporadas e retransmitidas por religiões tais, que resultam na padronização coletiva de comportamento. Se estas normativas se alteram e as instituições correlacionadas não as acompanham, tem-se como consequência suas crises. Em sociedades altamente globalizadas, estabelece-se uma selva darwinista: Os mais aptos a atender as demandas do capitalismo, são os notórios sobreviventes. De tal forma, as influências culturais correspondentes tenderão a preceitos de caráter individualista. E é que ocorre com países europeus e norte-americanos, destacados pelo desenvolvimento econômico aliçercado na exploração ideológica e geográfica das nações do lado sul do globo.
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Para o filósofo Nietzsche, aos homens futuros aguarda-se o Super-homem (Übermensch), o superador dos valores morais tradicionais e elaborador de sua própria moral, aquele determinador e determinante de seus próprios interesses e, enfim, hábil elaborador de um comportamento genuíno, intrínseco e indiferente à genealogia de valores ulteriores.
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Se observar acuidosamente, o objetivo do presente texto não é o trazer respostas, tampouco o de afastá-las: É o de, a passos curtos, aproximar de possíveis (e plausíveis) novos questionamentos. Uma atividade essencialmente paradoxal na labuta da busca por respostas. Se Nietzsche estivera certo, só o futuro (quiçá, o presente) que nos dirá dos limites da moral.
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- Silier Borges

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Resumo: Questionamentos pertinentes, relativos ao que compreende-se comumente como baianidade, em paralelo à falaciosa perspectiva de alegorias grotescas do mercantilismo, voraz fenômeno materializador de uma cultura sacra e simbólica.

Baianidade e Identidade Cultural

Em verdade que antropólogos, sociólogos e jornalistas evidentemente críticos, e engajados na ética profissional a que lhes cabe, não raro levantam infundadas críticas acerca do conceito compreendido com baianidade. Uma série de outros equívocos levantados por uma mídia impressa radicalizada, baseada essencialmente em preceitos errôneos, no instante em que aborda relevante temática sob uma perspectiva parcialmente falaciosa. Digo parcialmente, pois tal como sofistas, os midíaticos apresentam uma ou duas verdades para concluir o que nos é, evidentemente, infundado.

Das canções praieiras do Dorival, malemolência de sambistas locais (Batatinha, a exemplo destacável), até a saudosista Bahia amadiana certamente não passam de confabulações particulares que, apesar de abordar uma Salvador relativamente romanceada de início do século que nos antecede, funcionaram como mecanismos cruciais na reformulação do conceito de identidade cultural, a dita baianidade, apresentando-a não intencionalmente aos encantos dos investimentos e cifras do âmbito turístico. Evidentemente que abordada, com significativa frequência, no meio político-burocrático como intentos não-raro partidários, o próprio conceito de baianidade antecede a quaisquer vontades eleitoreiras ou, como mais recentemente, intenções de promoção do capital privado das várias empresas hoteleiras no recôncavo e afins.

O que nos é baianidade, na mais recente contemporaneidade, nada mais é que a apropriação da variedade particular de elementos regionalistas identitários baianos por poderios econômicos, fenômeno ápice globalizatório; porém, elaborada (num infindo moto-contínuo) por classes populares que dela usufruiram como instrumento de valoração da estima baiana, marginalizada pelo estigma da malandragem, da preguiça ou da suposta 'onipresente lascividade'. Neste ponto, é comum o mesclar de identidade cultural baiana com o próprio termo, de significativa heterogeneidade: Baianidade.

Enfim, a identidade cultural meramente simbólica, tal como a formulada tão-só para o agrado de estrangeiras vistas, não representa de fato o que, originariamente, conceitua-se baianidade. Se bem observarmos, tal seria a Baianidade da Bahiatursa, indireta contribuidora para o turismo sexual por meio de sua questionável publicidade, prostituindo elementos sacros de significativa representação à população baiana (tal como já discutido em artigos anteriores). Esta é a baianidade da Condolezza e dos anônimos arianos que desenbocam em portos, vorazes por miudezas alegóricas e mulatas de destacável beleza. O que bem se ressalta como baianidade supera a tais empecilhos, além das aparências materiais e do mercantilismo vigorado. É também a sua gente; que, certamente, não falecera com o Dorival.

- Silier Borges

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Resumo: Ponderações acerca da percepção cognitiva da realidade, além de breve passeio sob fato político que, quando analisado criticamente, faz-nos pensar acerca da falaciosa correlação entre ciências políticas e biológicas.
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Que é Realidade?
Ou Brasil, um país de todos (os) nós.
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Bem se sabe, de velhos tempos de discursos filosóficos, o poder de mutabilidade da realidade. Como compreender o significado semântico de verdade e concreto, observando-se o inexorável fato da verdade ser fenômeno, exclusivamente, construido por vivências e demais particularidades individuais?
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Desde Schopenhauer entende-se da incapacidade humana na dedução de uma realidade universalista e dotada de absoluta objetividade. De tal forma, a concepção de realidade nada mais era que representação do entender humano, em sua ampla limitação. Sendo assim, a análise da coisa-em-si (fenômeno que independa de análise humana) torna-se impraticável. Em tempos contemporâneos, para a corrente teórico-filosófica da Gestalt, cientificamente empregada no entender das novas teorias do desenvolvimento humano sob perspectiva psicológica, vê-se que a realidade nada mais é que construção intrínseca. Para tais teóricos, emprega-se a dita nomenclatura de mundo interno de experiência.
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Por tratar-se de experiência, bem se pode observar que tal discurso preconiza o já dito por filósofos de elevado calibre e de indubitável criticidade, a exemplo do grego Aristóteles. Em sua radicalização da força empirista, afirmara a Tábula Rasa, o homem como puramente construção das particularidades de sua experiência. Resgatado por Locke na modernidade e reavaliada pelos demais empiristas, a tese do homem como mediador e mediado por vivências adquirira status de ciência, sendo ora ou outra reafirmada em importância e contribuição por descobertas do campo da genética do comportamento. Apesar de que, esta última, não raramente posiciona-se contrária aos princípios básicos de concepção de mundo empiricista.
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A exemplo da caso de S.B. (ou outros vinte encontrados ao longo de duzentos anos de história), percebe-se o caráter da construção particular do que temos como realidade inexorável. Tal homem, devido à catarata congênita, jamais enxergara, sendo assim por longos cinquenta anos. Em dita idade, realizara operação que resolvera sua doença, sob perspectiva fisiológica. Entretanto, ver o mundo não é prática passiva; pelo contrário, essencialmente ativa. S.B. não compreendia o que via em sua completude, pois era incapaz de compreender noções de profundidade e distância. Veículos avistados por uma janela poderiam estar a quinze centímetros, sendo que em verdade encontravam-se a vários metros do transtornado cinquentenário. Não aprendera a perceber a realidade sob compreensão espacial, observando que seus últimos cinquenta anos foram por experiências tão-somente sensório-motoras. Sua visão particular de mundo, e igualmente a outrora vividez de sua personalidade, fora prejudicada pelo mencionado procedimento cirúrgico.
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Até que ponto a verdade física é construida por meio da interpretação e assimilação de simbolismos que compõem nossa realidade cultural? S.B., de fato necessitava de cirurgia, ou eram os médicos e cientistas que necessitavam da comprovação de superioridade visual sobre a modalidade táctil da percepção humana? Data vênia, quem de fato era cego?
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Ademais, não posso deixar a contextualização de lado, bem sabendo que tratamos de realidade (ou realidades, como queira). Na última semana de agosto, o ex-gestor Adelson Guimarães da SET (Superintendência de Engenharia de Tráfico) de Salvador prendera um modesto encanador de água sob égide da EMBASA, por impedir a passagem de carros numa dada rua, no transcorrer de meticulosa operação cidadã. Irritadiço, o ex-gestor nem ao menos permitira tamanhas explanações, retirando violentamente os cones que impediam o acesso, para logo em seguida dar voz de prisão ao anônimo trabalhador. Mais uma vez, o poder do coronelismo legalizado se é empregado, consolidando a pompa do 'desacato à autoridade' como máscara que encobre vergonhoso porém factível 'abuso de poder'. Já se passara o carnaval, mas as desfiguradas máscaras (assim como as descarações) persistem, como calo doído.
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Mais uma pérola do País de todos (os) nós. Penso, penso, mas para quê o pensar? A realidade, enfim, é mutável e fruto exclusivo da percepção humana. Como construtores individuais da realidade, liguemos pois o televisor na Globo, e esquecemos os mandos, desmandos e as demais impurezas cientificistas de nossa afável terra mãe-gentil.
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Não nos enganemos: ciências biológicas só se confudem com política nos governos facistas sob flâmula da excludente 'superioridade de raças', a falaciosa Eugenia. (De tal forma, a percepção humana é relativa. O que não deve ser relativizado são questões pertinentes à certas medidas políticas, sob risco de incorrer em inócuos discursos de base comodista, alienador de massas). Mas afirmar que a efetivação de políticas públicas também o é relativo, acaba-se por tentar justificar o injustificável.
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- Silier Borges